segunda-feira, 14 de setembro de 2026

SOLO: A STAR WARS STORY (2018)



Sejamos honestos: Solo: Uma História de Star Wars é um filme que ninguém estava propriamente desesperado para ver. Um filme sobre Han Solo sem Harrison Ford? Excelente. O que poderia correr mal? É um pouco como fazer um filme do James Bond sem o James Bond e depois esperar que ninguém dê por isso.

E, no entanto, apesar de todas as razões pelas quais este filme parecia uma ideia terrível, até gosto bastante mais de Solo do que estava à espera. Na verdade, prefiro revê-lo a grande parte da trilogia moderna de Star Wars, o que provavelmente diz mais sobre a minha relação com o Star Wars moderno do que propriamente sobre a qualidade deste filme em particular.

Há, no entanto, uma enorme vantagem em Solo: é espetacularmente esquecível.

Sempre que o vejo, parece que estou a vê-lo pela primeira vez. Genuinamente, não consigo lembrar-me do que acontece durante grande parte do filme. Aparecem personagens, as pessoas traem-se umas às outras, os comboios explodem, alguém leva um tiro, o Chewbacca rosna, a Millennium Falcon anda por ali a voar e depois começam os créditos. Umas semanas mais tarde, o meu cérebro já apagou completamente a experiência. É maravilhoso.

Alden Ehrenreich, ainda assim, merece algum crédito. Faz um trabalho bastante competente como um Han Solo mais jovem. Obviamente, não tem a presença de Harrison Ford — porque, francamente, muito poucos seres humanos a têm — mas também não se limita a tentar imitar Ford. Dá à personagem uma personalidade própria, mantendo-a suficientemente reconhecível como o convencido e sarcástico sacana que já conhecemos.

Também gosto do facto de esta ser uma história de Star Wars relativamente pequena. Nada de Estrelas da Morte. Nada de armas capazes de destruir planetas. Nada de um mal ancestral a regressar dos mortos. Nada de uma tentativa desesperada de me fazer interessar por mais uma misteriosa linhagem familiar. É simplesmente Han Solo a meter-se com criminosos, contrabandistas e, no geral, a tomar decisões absolutamente péssimas. Basicamente, Han a ser Han.

E, sinceramente, não me importava nada que a Disney fizesse mais alguma coisa com esta versão da personagem. Dêem-me uma minissérie de Solo em que cada episódio seja uma aventura diferente: Han e Chewie a contrabandear alguma coisa, a meterem-se em sarilhos, a enganarem alguém, a serem perseguidos por caçadores de recompensas e a conseguirem escapar de alguma forma no último segundo possível. Basicamente, The Mandalorian, mas com mais sarcasmo, mais apostas e uma probabilidade muito maior de o Han disparar primeiro.

Solo não é uma obra-prima e, certamente, não era o filme de Star Wars que o mundo estava a exigir. Mas, apesar de ser um filme sobre uma das personagens mais icónicas do cinema que ninguém estava particularmente a pedir, dou por mim a gostar dele mais do que provavelmente deveria.

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A CINDERELLA STORY (2004)


Há filmes que pegam num conto de fadas clássico e tentam reinventá-lo para os tempos modernos. E depois há A Cinderella Story, que olhou para a Cinderela, consultou provavelmente uma revista Bravo de 2004 e decidiu:

“E se ela tivesse um telemóvel, trabalhasse num diner e o príncipe fosse o capitão da equipa de futebol americano?”

E pronto.

Nasceu isto.

Não sei se alguém pediu, mas respeito a dedicação.

Lançado em 2004, A Cinderella Story é a Cinderela para uma geração que cresceu com telemóveis de abrir, MSN Messenger, Hi5, calças de cintura descida (epa, o que eu gostava de olhar para elas) e aquela fase maravilhosa em que ter uma fotografia com os olhos vermelhos tirada com uma webcam de 0,3 megapixéis era considerado conteúdo digital.

É um filme tão início dos anos 2000 que quase esperamos que alguém entre em cena a dizer “manda-me um toque” e a seguir cobre 50 cêntimos por isso.

A história é a mesma de sempre.

Temos Sam Montgomery, a nossa Cinderela, uma rapariga gira que se farta, inteligente e simpática que, por algum motivo, é tratada como se fosse a empregada de limpeza da escola.

E aqui começa a primeira grande fantasia do filme.

Sam é interpretada por Hilary Duff.

A mulher aparece no ecrã e o filme quer convencer-nos de que ninguém repara nela.

Desculpem, mas isto é mais difícil de engolir do que o preço de uma bica no centro de Lisboa.

Estamos a falar de Hilary Duff. Uma pessoa que podia entrar numa escola secundária americana, tropeçar numa mochila e, cinco minutos depois, haveria pelo menos três clubes de fãs.

Mas não.

Para os adolescentes deste filme, ela é invisível.

Porque, aparentemente, se não tiveres roupa cara, amigos populares e uma posição elevada na hierarquia social do liceu, és basicamente um sem-abrigo.

A escola funciona como uma espécie de Parlamento, com as cheerleaders no Governo, os jogadores de futebol na oposição e os restantes alunos a tentarem sobreviver.

E dinheiro.

Muito dinheiro.

Porque, como todos sabemos, a verdadeira moral da Cinderela é: sê boa pessoa, trabalha arduamente e talvez um dia apareça um príncipe.

Aqui é mais:

“Se não tens dinheiro e não és popular, prepara-te para levar com bullying até aos 18.”

Sam vive com a madrasta e as duas meias-irmãs, que são tão maléficas que só falta terem uma cave onde guardam crianças órfãs.

E depois temos Austin Ames, o nosso Príncipe Encantado, interpretado por Chad Michael Murray.

E aqui o filme começa a perder completamente o contacto com a realidade.

Porque Chad Michael Murray em 2004 não parecia um adolescente.

Parecia um modelo da Calvin Klein que tinha sido sequestrado e obrigado a frequentar o liceu.

Austin é bonito.

É popular.

É capitão da equipa de futebol.

Namora com a rapariga mais popular da escola.

Tem cabelo perfeito.

Tem problemas com o pai.

É sensível.

E escreve poesia.

Claro que escreve poesia.

Porque nada representa melhor um jogador de futebol americano adolescente do que passar o treino a placar adversários contra uma parede e depois chegar a casa para escrever:

“Os teus olhos são como estrelas…”

Enquanto olha tristemente pela janela.

É o equivalente americano de um jovem de 17 anos em Portugal jogar futebol no União de Leiria e depois ir para casa ouvir Coldplay enquanto escreve poemas num caderno da Ambar (referências datadas?? who cares?)

E, claro, Austin apaixona-se por Sam através da Internet sem saber quem ela é.

Porque estamos em 2004.

Uma época em que duas pessoas podiam falar durante semanas através de mensagens sem saber o nome completo uma da outra.

Hoje isso duraria aproximadamente seis minutos.

“Olá, quem és?”

“Não posso dizer.”

“Ok, bloqueado.”

Mas em 2004?

Era ROMÂNTICO.

Era MISTERIOSO.

Era SEXY.

Era basicamente o Tinder sem fotografias e com muito mais risco de encontrares alguém que afinal era um senhor de 47 anos.

E aqui entra a modernização da Cinderela.

O sapatinho de cristal passa a ser um telemóvel.

O baile é uma festa de Halloween.

A carruagem de abóbora é um Mercedes.

E a fada-madrinha é um grupo de empregados de um diner que aparentemente não têm nada melhor para fazer durante o turno do que organizar a vida amorosa de uma adolescente.

“Temos clientes à espera.”

“Sim, mas a Sam precisa de encontrar o amor.”

É um argumento sólido.

O filme, entretanto, vai passando por todos os clichés possíveis do romance adolescente de 2004.

Rapariga bonita que não sabe que é bonita? Check.

Rapaz popular com problemas emocionais? Check.

Namorada rica, bonita e completamente psicótica? Check.

Melhor amigo estranho? Check.

Meias-irmãs invejosas? Check.

Hierarquia social do liceu tratada como se estivéssemos perante uma mistura de Morangos com Açúcar e Succession? Check.

E há uma coisa que me fascina particularmente neste tipo de filmes:

Ninguém sabe comunicar.

Ninguém.

Toda a história poderia ser resolvida numa conversa de quatro minutos.

Mas não. Isso seria demasiado simples.

Portanto, passam cerca de 90 minutos a esconder identidades, a mentir, a fugir, a interpretar mensagens de forma errada e a tomar decisões que fariam qualquer espectador português gritar para o ecrã:

“MAS FALA COM O GAJO, CARALHO!”

E nós sabemos tudo o que vai acontecer.

Sabemos que Sam e Austin vão apaixonar-se.

Sabemos que a namorada popular é uma besta.

Sabemos que as meias-irmãs e madrasta vão ter aquilo que merecem.

Sabemos que haverá uma grande revelação.

Sabemos que vai chover.

Sabemos que alguém vai correr dramaticamente.

Sabemos que haverá lágrimas.

E sabemos que, a certa altura, a banda sonora vai começar a tocar como se alguém tivesse acabado de descobrir a cura para o cancro.

SENTIMENTOS!

AMOR!

DESTINO!

HILARY DUFF A CORRER À CHUVA! (esta parte adoro)

Não há aqui uma única reviravolta.

Este filme tem menos surpresas do que uma ida à Segurança Social numa segunda-feira de manhã.

Mas, estranhamente, eu não me importo.

Porque A Cinderella Story é exactamente aquilo que parece: um filme estúpido, previsível, lamechas e tão descaradamente adolescente que acaba por se tornar genuinamente simpático.

E há uma coisa chamada nostalgia que é uma filha da mãe extremamente poderosa.

Porque podemos olhar para este filme e pensar:

“Meu Deus, que coisa ridícula.”

E, cinco minutos depois:

“Porra, eu lembro-me disto.”

É como encontrar uma velha conta do Hi5 ou uma fotografia de 2005 com gel no cabelo e perceber que, apesar de tudo, sobrevivi.

Hilary Duff é uma enorme parte desse encanto.

Ela tem aquele ar de "girl next door" que torna Sam imediatamente simpática.

E depois temos Chad Michael Murray. Algures em 2004, milhares de adolescentes deveriam ficar molhadas só de olhar para ele.

É impressionante.

Austin é basicamente a fantasia adolescente feminina transformada em ser humano.

Jogador de futebol.

Bonito.

Sensível.

Poeta.

Traumatizado.

Pai complicado.

Romântico.

Só faltava dizer que também sabe cozinhar e que uma vez salvou um cão de um incêndio. E os argumentistas provavelmente só não incluíram isso porque o filme já tinha 88 minutos.

Jennifer Coolidge, entretanto, está completamente noutra dimensão.

A mulher não interpreta a madrasta. A mulher é possuída pela madrasta.

Está a representar a 300 quilómetros por hora enquanto o resto do elenco tenta simplesmente acompanhar.

E eu respeito. Muito.

Mas talvez a melhor personagem de A Cinderella Story seja o próprio ano de 2004.

Porque este filme é um museu ambulante.

A roupa.

Os cabelos.

Os telemóveis.

A Internet.

O MSN.

Os computadores.

As mensagens.

As pessoas a encontrarem-se online sem qualquer mecanismo de segurança.

Tudo grita 2004.

É quase possível sentir o cheiro a Morangos com Açúcar enquanto vemos isto. E há algo genuinamente adorável nessa simplicidade.

Hoje em dia, um filme destes provavelmente teria uma dúzia de referências à cultura da Internet, personagens autoconscientes, piadas sobre redes sociais e alguém a dizer “isso é tão cringe”.

Aqui não.

O filme simplesmente quer ser romântico. Quer ser lamechas. Quer fazer adolescentes suspirar. E não tem vergonha nenhuma disso. E, sinceramente, respeito.

Porque há qualquer coisa refrescante num filme que não está constantemente a tentar provar que é inteligente.

A Cinderella Story sabe que é um conto de fadas. Sabe que é previsível. Sabe que é ridículo. E segue em frente.

É quase como comer uma francesinha às três da manhã depois de uma noite de copos: sabes perfeitamente que não é uma decisão racional, mas naquele momento parece a melhor ideia do mundo.

É previsível?

Como o Natal.

É lamechas?

O suficiente para precisar de insulina.

As personagens são clichés ambulantes?

Sem qualquer dúvida.

A história podia ser resolvida se alguém tivesse aprendido a comunicar?

Em aproximadamente quatro minutos.

É realista?

Nem por sombras.

Importa-me?

Nem um bocadinho.

Talvez seja a nostalgia a fazer metade do trabalho.

Talvez eu esteja a perdoar ao filme coisas que, noutras circunstâncias, me fariam arrancar os olhos.

Mas a verdade é que me diverti a rever isto.

E, no final, A Cinderella Story é aquilo que sempre quis ser: uma versão adolescente, cor-de-rosa e profundamente 2004 da Cinderela.

Não é uma obra-prima.

Não é original.

Não é particularmente inteligente.

Mas é doce, parvo, nostálgico e tão deliciosamente preso em 2004.

E talvez seja essa a maior qualidade de A Cinderella Story.

Não tenta mudar o mundo.

Não quer ser o próximo grande clássico.

Só quer que desliguemos o cérebro durante hora e meia, recordemos uma época em que os telemóveis tinham antena e o maior problema da nossa vida era alguém ter-nos bloqueado no MSN.

E, sinceramente?

Às vezes, um filme não precisa de ser bom. Precisa apenas de nos fazer voltar ao passado durante 90 minutos.

E A Cinderella Story consegue isso.

sábado, 29 de agosto de 2026

THE AMAZING SPIDERMAN 2 (2014)


Sinceramente, não percebo muito bem porque é que The Amazing Spider-Man 2 é tão odiado. A sério. Sempre que revejo este filme, fico com a sensação de que devo ter visto uma versão completamente diferente daquela que toda a gente viu. É confuso? É. Tem demasiadas coisas? Sem dúvida. É um filme perfeito? Nem de perto. Mas é mau? Não. Nem por sombras.

Na verdade, arrisco-me a dizer uma coisa que provavelmente me vai valer alguns comentários furiosos: The Amazing Spider-Man 2 é tão bom como o primeiro filme e, em alguns aspetos, até consegue ser melhor.

Para começar, temos uma coisa que um filme de super-heróis convém ter: vilões memoráveis.

O Electro é simplesmente brutal. O visual, os poderes, a forma como interage com a eletricidade e com toda a rede elétrica de Nova Iorque… há qualquer coisa de deliciosamente exagerado na personagem. E Jamie Foxx percebeu perfeitamente que a subtileza não tinha sido convidada para este filme.

E ainda bem.

Isto é um filme do Homem-Aranha. Quero um homem azul luminoso a disparar eletricidade pelos dedos e a causar o caos em Nova Iorque. Se eu quisesse realismo, provavelmente estaria a ver um documentário sobre IRS ou a ler os termos e condições do meu seguro automóvel.

E depois temos o Duende Verde.

A transformação do Harry Osborn funciona porque as consequências emocionais são muito mais fortes do que o habitual “vilão quer destruir a cidade porque sim”. O Harry não é apenas mais um tipo que aparece para levar porrada do Homem-Aranha durante 15 minutos. É o melhor amigo de infância do Peter, está desesperado e obcecado em encontrar uma cura para a doença que herdou do pai.

De repente, temos um conflito pessoal.

E isso dá muito mais peso à história.

Mas, obviamente, o verdadeiro coração do filme está na relação entre Peter e Gwen.

A dinâmica dos dois — “estamos juntos?”, “não estamos juntos?”, “amamo-nos mas talvez não devêssemos estar juntos porque a vida do Peter é uma gigantesca catástrofe ambulante?” — funciona bastante bem.

Porque, no fundo, é uma relação credível. São duas pessoas que se amam genuinamente, mas que percebem que namorar com o Homem-Aranha é provavelmente uma das piores decisões possíveis quando se procura estabilidade emocional.

E Andrew Garfield e Emma Stone são simplesmente excelentes juntos.

A química entre os dois é tão natural que nunca parecem dois atores a recitar diálogos românticos porque o argumento decidiu.

Parecem realmente um casal.

Há espontaneidade, humor, cumplicidade e uma enorme carga emocional entre os dois. E é tão convincente que, durante alguns momentos, quase nos esquecemos de que estamos a ver um filme sobre um homem vestido com um fato vermelho e azul a balançar-se por Nova Iorque.

E depois chega aquela cena.

A morte da Gwen continua a ser absolutamente devastadora.

Não há salvamento milagroso no último segundo. Não há uma solução conveniente graças ao Sentido-Aranha. Não há um “afinal ela está bem!” tirado da cartola. O Peter tenta salvá-la.

E falha.

É isso que torna o momento tão poderoso. Pela primeira vez, o Homem-Aranha não consegue salvar a pessoa que mais ama. E as consequências desse fracasso são enormes.

O problema é que, para mim, o filme acaba por sofrer de uma coisa que nem sequer é totalmente culpa dele: precisava da sequela que nunca tivemos.

Era suposto vermos o que a morte da Gwen faria ao Peter. Como aquele trauma o iria transformar. Como iria afetar a sua relação com o facto de ser o Homem-Aranha. Como iria conseguir ultrapassar aquilo.

Mas a Sony decidiu seguir outro caminho e acabou por cancelar a continuação planeada.

Resultado: ficámos com um arco emocional que parece ter sido interrompido a meio de uma frase.

E é uma pena.

Porque Andrew Garfield estava fantástico como Peter Parker.

Já o disse antes e volto a dizê-lo: Andrew Garfield é o meu Homem-Aranha live-action favorito. E este filme é provavelmente o melhor argumento para defender essa escolha.

O Peter de Garfield é engraçado, desajeitado, carismático e extremamente vulnerável. Consegue ser o Homem-Aranha cheio de piadas num minuto e, no seguinte, um ser humano completamente destruído emocionalmente.

E Garfield vende tudo isso.

É uma interpretação que consegue juntar o lado divertido do personagem com uma fragilidade que, especialmente neste filme, se torna cada vez mais evidente.

Também acho que o filme merece mais crédito pelas suas sequências de ação.

Logo no início, temos o Homem-Aranha a parar um camião em plena cidade, numa sequência que é puro espetáculo de banda desenhada. E o confronto final com o Electro é visualmente impressionante.

Marc Webb percebeu uma coisa muito importante: o Homem-Aranha devia parecer divertido a ser o Homem-Aranha.

E Andrew Garfield transmite isso na perfeição. Os movimentos, os balanços, a forma como se desloca entre os edifícios… há uma naturalidade física na sua interpretação que faz com que pareça realmente alguém que nasceu para fazer aquilo.

É um Homem-Aranha que parece estar a divertir-se.

Mesmo quando está a salvar o mundo.

Há, no entanto, um problema que é impossível ignorar.

Há simplesmente filme a mais dentro deste filme.

Temos o Electro.

Temos o Harry.

Temos o Peter e a Gwen.

Temos o Peter a investigar o passado dos pais.

Temos a Oscorp.

Temos a Tia May.

Temos o Rhino.

Temos provavelmente mais três ou quatro histórias secundárias que alguém se esqueceu de cortar.

É material suficiente para três filmes e, se apertarmos um bocadinho, ainda dá para uma minissérie de seis episódios na Disney+.

Apesar de tudo isto, continuo a divertir-me imenso com The Amazing Spider-Man 2.

Talvez seja porque o filme não tem vergonha nenhuma de mostrar o coração que tem.

Talvez seja porque Andrew Garfield e Emma Stone são simplesmente excelentes juntos.

Talvez seja porque o filme percebe que o Homem-Aranha funciona melhor quando conseguimos equilibrar o espetáculo de super-heróis com a vida pessoal de Peter Parker.

Ou talvez eu seja simplesmente imune ao consenso da Internet.

Seja qual for a razão, acho que The Amazing Spider-Man 2 merece uma reavaliação séria.

É confuso. É sobrecarregado. Tem demasiadas personagens, demasiadas histórias e demasiadas coisas a acontecer ao mesmo tempo. E, por vezes, é completamente absurdo.

Mas também é divertido, emocional, romântico, visualmente impressionante e, sobretudo, surpreendentemente trágico.

Pode não ser o filme perfeito.

Mas está muito, muito longe de ser o desastre que a sua reputação faz parecer.

E, sinceramente, depois de rever este filme, continuo sem perceber porque é que tanta gente decidiu que era altura de atirar o Amazing Spider-Man 2 para o caixote do lixo da história.


quinta-feira, 27 de agosto de 2026

THE AMAZING SPIDERMAN (2012)


Acho que está na altura de dizer isto sem rodeios: Andrew Garfield é o melhor Spider-Man em live-action. Pronto, já o diss. A internet pode agora preparar os comentários furiosos.

E, sinceramente, nem é uma competição particularmente renhida.

Garfield é um ator muito melhor do que Tobey Maguire e Tom Holland, e aquilo que faz com Peter Parker é algo que eu realmente aprecio. Ele não o interpreta como o nerd da escola que passa duas horas a ser gozado por toda a gente num raio de oito quilómetros. Este Peter é desajeitado, claro, mas também tem confiança, sarcasmo e uma certa pinta descontraída. Parece alguém que conseguiria sobreviver ao liceu sem precisar de uma operação de resgate por parte do Spider-Man.

Mas também não é o típico bad boy. Garfield encontra aquele ponto perfeito entre “génio socialmente desajeitado” e “tipo que, de alguma forma, consegue parecer cool enquanto anda de skate”. Isso faz com que Peter pareça muito mais natural e, francamente, muito mais interessante.

E depois temos o lado físico da personagem. Garfield parece uma aranha humana. É magro, ágil e movimenta-se com uma fluidez quase sobrenatural. Vê-lo balançar-se, trepar paredes, esquivar-se de ataques e lançar-se por Nova Iorque dá genuinamente a sensação de estarmos a ver o Spider-Man, e não um ator vestido com um fato do Spider-Man. A linguagem corporal dele vende a personagem tanto quanto o próprio fato. Cada movimento tem aquela qualidade ligeiramente semelhante à de um inseto que faz com que tudo funcione.

E sim, The Amazing Spider-Man tem os seus problemas. O argumento não é propriamente algo que quiséssemos preservar num bunker nuclear para as gerações futuras. A história pode ser confusa, o Lagarto não está exatamente no topo dos melhores vilões de banda desenhada, e há momentos em que o filme parece desesperadamente tentar justificar porque é que estamos a assistir a outra história de origem do Spider-Man apenas dez anos depois da anterior.

Mas, apesar de tudo isso, há aqui muitas coisas que fazem deste um filme do Spider-Man bastante melhor do que aquilo que as pessoas lhe reconhecem.

Para começar, a química entre Andrew Garfield e Emma Stone é absolutamente inegável. E isto é importante porque escolher dois bons atores não chega. Eles têm de funcionar juntos. E Garfield e Stone funcionam. Cada interação entre Peter e Gwen parece natural, divertida, desajeitada e genuinamente carinhosa. Acreditamos que aquelas duas pessoas gostam realmente uma da outra, o que deveria provavelmente ser o mínimo indispensável para uma trama romântica, mas que, de alguma forma, Hollywood ocasionalmente trata como se fosse astrofísica avançada.

A relação entre os dois dá ao filme um centro emocional de que a história precisa desesperadamente. Emma Stone está fantástica como Gwen Stacy, dando inteligência, personalidade e calor à personagem, em vez de simplesmente existir como “A Rapariga de Quem o Spider-Man Gosta”.

E depois há os momentos emocionais. O filme consegue ser surpreendentemente sincero quando quer, sobretudo quando Peter lida com as consequências das suas ações e com as pessoas que o rodeiam. Percebe que ser Spider-Man não é apenas saltar entre edifícios e dar murros a répteis gigantes. Por baixo de todo o CGI existe um verdadeiro sentido de responsabilidade e vulnerabilidade.

Também gosto bastante das sequências em POV. Ver o mundo através da perspetiva do Spider-Man dá um impacto extra a algumas das cenas de ação, e existe uma genuína sensação de velocidade e vertigem na forma como ele se movimenta por Nova Iorque.

E depois temos a “cena dos guindastes”.

Adoro-a.

É ridícula, sentimental, totalmente Hollywoodesca e, de alguma forma, funciona na mesma. Ver os trabalhadores da construção civil ajudarem o Spider-Man a chegar ao seu destino é um daqueles momentos em que o filme deixa temporariamente de se preocupar com a mecânica da história e simplesmente abraça aquilo que torna o Spider-Man numa personagem tão adorada. É emocionante, inspirador e gloriosamente lamechas. 

Outra coisa que aprecio é que, ao contrário de alguns dos filmes mais recentes do Spider-Man, eu lembro-me do vilão.

O Lagarto pode não ser o melhor vilão de banda desenhada alguma vez criado, mas pelo menos tem uma cara, um nome e um lugar na minha memória. Peçam-me para nomear todos os vilões do Spider-Man do MCU e há uma boa possibilidade de eu começar a inventar coisas. A esta altura, alguns desses filmes misturaram-se todos na minha cabeça, como se a Marvel os tivesse metido numa liquidificadora e carregado no botão “universo cinematográfico”.

Talvez essa seja a coisa mais estranha em The Amazing Spider-Man. É um filme que nunca foi universalmente adorado, e eu percebo porquê. Tem falhas. Mas, quando volto a vê-lo, continuo a encontrar coisas que funcionam: a interpretação de Garfield, a Gwen de Stone, a química entre os dois, a fisicalidade do Spider-Man, os planos em POV, os momentos emocionais, a ação e aquele surpreendentemente eficaz sentido de romance juvenil.

O filme também merece algum crédito por tentar dar a Peter Parker uma personalidade ligeiramente diferente depois da trilogia de Sam Raimi. Marc Webb, vindo de um percurso ligado a videoclipes e ao drama romântico 500 Days of Summer, trouxe claramente uma maior atenção à relação entre Peter e Gwen. E essa influência é muito evidente. Este é, provavelmente, tanto um romance de amadurecimento como um filme de super-heróis.

Portanto, não, The Amazing Spider-Man não é perfeito.

Mas, depois de o rever, dou por mim a pensar se não terá simplesmente sido lançado na altura errada. Chegou depois da extremamente popular trilogia de Raimi, com o público a perguntar, compreensivelmente: “Precisávamos mesmo de outra história de origem do Spider-Man tão cedo?” Talvez a resposta fosse não.

Mas precisávamos de Andrew Garfield como Spider-Man? Absolutamente.

Porque, para mim, Garfield é a combinação perfeita entre Peter Parker e Spider-Man: engraçado sem ser um palhaço, desajeitado sem ser um completo falhado, cool sem ser um idiota, e fisicamente convincente o suficiente para fazer a personagem parecer uma verdadeira aranha humana.


quarta-feira, 26 de agosto de 2026

SPIDER-MAN 3 (2007)


Spider-Man 3 está longe de ser tão mau como as pessoas o fazem parecer. É confuso? Sem dúvida. Está sobrecarregado de coisas e mais coisas? Definitivamente. É, por vezes, completamente tresloucado? Sem dúvida nenhuma. Mas será a catástrofe cinematográfica que algumas pessoas parecem recordar? Na verdade, não.

A maior crítica que ouço constantemente é: “Há vilões a mais.” E, sinceramente, não concordo totalmente. Sim, temos o Sandman, o Venom e o Green Goblin, embora o Harry Osborn seja, nesta altura, mais uma espécie de vilão-que-se-torna-herói-que-se-torna-vilão-que-se-torna-amigo. Mas prefiro muito mais ter três personagens que realmente fazem alguma coisa do que 756 super-heróis enfiados no mesmo filme, desesperadamente a lutar por três minutos de tempo de ecrã cada um. Sim, estou a olhar para vocês, MCU.

Dito isto, a história de Venom/Eddie Brock parece, sem dúvida, pertencer a outro filme. Há material suficiente ali para um filme inteiro, e enfiar a sua transformação, o fato preto do Peter, a história do Sandman, o arco de vingança do Harry e o colapso emocional do Peter no mesmo tempo de duração faz com que o filme pareça ter recebido três guiões e alguém lhe tenha dito para engolir os três de uma só vez.

E depois temos Tobey Maguire em Dance Mode.

Peter Parker é corrompido pelo simbionte (não sei o nome certo daquilo) e, aparentemente, o primeiro sintoma é descobrir que se é dono de uma discoteca interior. O fato preto, o cabelo, o andar gingão, as pistolas feitas com os dedos, aquela confiança completamente desnecessária... é glorioso. Também é profundamente, profundamente constrangedor. Ver o Peter a andar pela rua como se tivesse acabado de descobrir o jazz pela primeira vez pode ser um dos momentos mais estranhos de sempre num filme de super-heróis. E, de alguma forma, eu não gostaria que o retirassem.

Na verdade, há muitas coisas de que ainda gosto aqui. Thomas Haden Church dá um peso emocional genuíno ao Sandman, sobretudo nas cenas que envolvem a filha. James Franco tem bastante mais para fazer com o Harry, e todo o seu arco continua a ser um dos elementos mais fortes da trilogia. Entretanto, Topher Grace está claramente a divertir-se imenso como Eddie Brock, mesmo que o filme não dê ao Venom espaço suficiente para respirar.

O filme está constantemente a tentar ser três filmes diferentes ao mesmo tempo e, ocasionalmente, consegue ser os três em simultâneo. Outras vezes, parece que alguém carregou acidentalmente em “adicionar personagem” aproximadamente dezassete vezes.

Mas ainda há algo maravilhosamente sincero em Spider-Man 3. Tem o mesmo coração emocional dos filmes anteriores, algumas sequências de ação fantásticas, uma excelente banda sonora e um elenco claramente empenhado no ridículo daquilo que está a fazer.

É confuso. É excessivo. É ocasionalmente hilariante sem intenção. Mas também é divertido, ambicioso e está longe de ser a catástrofe que a sua reputação sugere.

E sim, vou defender a dança.

sábado, 15 de agosto de 2026

SPIDER-MAN (2002)


Tenho de admitir uma coisa que pode ser difícil de processar para algumas pessoas: rever o Spider-Man, de Sam Raimi, ajudou-me a sarar algumas feridas antigas.

Para que percebam, sempre fui firmemente Team DC. O Superman e o Batman são os meus super-heróis. Os meus heróis de infância. A certa altura, isto evoluiu naturalmente para um ódio completamente racional e perfeitamente saudável por tudo o que fosse Marvel. E Spider-Man foi um dos primeiros filmes a receber toda a força do meu cuidadosamente cultivado ódio à Marvel.

Olhando para trás, provavelmente estava a ser um pouco injusto e imaturo.

Vê-lo novamente hoje, com um pouco menos de espírito de fanboy e consideravelmente mais maturidade emocional — ou, pelo menos, com a ilusão de a ter — permite-me finalmente perceber porque é que tantas pessoas adoram este filme. Não, não é perfeito. Nem de perto. Mas há nele uma sinceridade maravilhosa que muitos dos filmes de super-heróis modernos parecem ter esquecido.

Para começar, Spider-Man assume orgulhosamente que é um filme baseado numa banda desenhada. Não passa duas horas e meia a tentar desesperadamente convencer-nos de que os super-heróis são, na realidade, pessoas extremamente sérias que, por acaso, usam capas. Raimi abraça as origens de banda desenhada, a realidade exagerada, as personagens coloridas e o melodrama, mantendo, ao mesmo tempo, o mundo suficientemente realista para nos importarmos com o que está a acontecer.

E esse equilíbrio funciona surpreendentemente bem.

Depois temos Willem Dafoe, que basicamente entra no filme, olha diretamente para a câmara com aqueles olhos magníficos e decide que a subtileza é coisa para atores menores. Norman Osborn está completamente descontrolado, e Dafoe rouba absolutamente todas as cenas em que aparece. De alguma forma, consegue tornar Norman assustador, ridículo, trágico e divertido, por vezes tudo nos mesmos cinco segundos.

O facto de James Franco e Dafoe parecerem genuinamente pai e filho também ajuda imenso. Há ali uma semelhança familiar convincente, o que torna a relação entre Harry e Norman muito mais credível. É um daqueles pequenos pormenores que talvez não se note conscientemente, mas que ajuda toda a coisa a funcionar.

Tobey Maguire é outra história. Certamente não parece um adolescente. Parece mais alguém que acabou de pagar a prestação da casa e está a tentar perceber se deixou o forno ligado. Mas Maguire tem algo importante: parece completamente deslocado. Peter Parker tem aquela expressão permanente de alguém que entrou acidentalmente na sala errada e é demasiado socialmente desajeitado para sair.

E, honestamente, funciona.

Há momentos em que o filme entra de cabeça no território da lamechice. Algumas cenas são tão sinceras que quase consigo ouvir um violino a aquecer algures fora de cena. Mas, curiosamente, agora acho essa sinceridade bastante encantadora. Raimi não tem vergonha do romantismo da história. Abraça-o.

O que me leva àquele beijo.

Durante anos, gozei com o beijo do Spider-Man pendurado de cabeça para baixo. Achava-o ridículo. Impraticável. Mas, ao vê-lo novamente, tenho de admitir a derrota.

É romântico para caraças.

Pronto. Disse-o.

O filme também tem alguns momentos de suspense genuinamente eficazes. A cena do jantar de Ação de Graças, por exemplo, constrói a tensão de forma magnífica. Norman a perceber gradualmente que Peter sabe mais do que deveria, Peter a sentir que alguma coisa está errada, Harry completamente alheio à bomba nuclear emocional que está sentada à mesa do jantar... é maravilhosamente desconfortável. Raimi sabe deixar uma cena respirar em vez de fazer imediatamente alguma coisa explodir.

E provavelmente foi uma das coisas que mais apreciei nesta revisão. Spider-Man leva realmente o seu tempo. Permite-nos conhecer Peter, Mary Jane, Harry e Norman antes de transformar toda a gente em super-heróis, vilões e vítimas. A história de origem parece uma verdadeira história, em vez daquele tutorial obrigatório que é preciso despachar no início.

Os efeitos visuais estão obviamente mais datados hoje, mas ainda existe uma fisicalidade nas cenas de ação que aprecio bastante. Parece um filme de uma época em que o cinema de super-heróis ainda estava a tentar perceber como andar antes de, eventualmente, aprender a produzir doze filmes por ano.

Por isso, depois de todos estes anos, sou oficialmente obrigado a rever a minha opinião.

Spider-Man não é perfeito. Pode ser lamechas, melodramático e, ocasionalmente, parece ter sido concebido por alguém que acabou de descobrir o CGI e imediatamente ficou perigosamente entusiasmado com ele.

Mas tem coração.

Compreende as suas personagens. Compreende o mundo das bandas desenhadas de onde veio. Sabe quando deve ser divertido, quando deve ser romântico e, surpreendentemente muitas vezes, quando deve ser genuinamente tenso.

Mais importante ainda, voltar a vê-lo fez-me perceber que talvez o meu eu mais jovem não fosse propriamente um crítico de cinema sério.

Era apenas um fanboy da DC com uma birra.

E, honestamente, acho que o Peter Parker finalmente me perdoou.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

LE FABULEUX DESTIN D'AMELIE POULAIN (2001)


Estou a rever O Fabuloso Destino de Amélie Poulain e, honestamente, estou naquele estado de suspensão em que já não sei se sou um “crítico de cinema” ou apenas alguém que precisa de um abraço e de uma oportunidade para partir o açúcar queimado de um crème brûlée.

É difícil falar deste filme de forma objetiva. Se me perguntarem se o argumento segue uma estrutura clássica de três atos ou se o ritmo é o ideal, provavelmente vou encolher os ombros. Mas se me perguntarem o que senti... ah, isso já é outra história. Passei aquelas duas horas numa montanha-russa emocional onde a felicidade, a melancolia e a nostalgia decidiram organizar uma festa dentro do meu coração.

Apaixonamo-nos por Amélie logo nos primeiros minutos. Ela tem aquela forma “estranha” de viver — observa o mundo através de um telescópio, enquanto tem medo de sair à rua. Parece flutuar numa espécie de infelicidade tranquila até que, entre cabinas fotográficas e álbuns de fotografias perdidos, encontra o seu grande propósito: tornar-se a fada-madrinha de Montmartre.

E que elenco de “pacientes” ela encontrou:

O Pai: com a sua obsessão pelo gnomo de jardim (que acaba por viajar pelo mundo).

Os colegas do Café des 2 Moulins: desde Georgette, a hipocondríaca, até Joseph, o profissional dos ciúmes que grava tudo o que a ex-namorada diz.

O “Homem de Vidro”: que pinta o mesmo quadro há décadas e nos faz questionar se nós também somos feitos de cristal.

A forma como ela manipula a vida destas pessoas — de maneira doce, mas ligeiramente maquiavélica — é magistral. Quem nunca sonhou vingar-se de um merceeiro mal-educado como o Sr. Collignon, trocando-lhe os chinelos de sítio ou mexendo no despertador?

Sejamos sinceros: a cidade de Paris de Jean-Pierre Jeunet é provavelmente a maior peça de “fake news” da história do cinema, e eu adoro-o por isso. Onde estão os milhões de turistas a atropelarem-se uns aos outros? Onde estão os tipos a vender porta-chaves da Torre Eiffel? Não existem. Até o sem-abrigo tem dignidade, recusando esmolas aos domingos porque “não trabalha aos fins de semana”.

É uma Montmartre filtrada por uma lente amarela e quente, onde tudo é limpo, bucólico e sonhador. É o tipo de mentira que aceitamos de bom grado, porque o mundo real já tem cinzento que chegue.

Não se pode falar de Amélie sem mencionar o acordeão de Yann Tiersen. A banda sonora é quase onírica. Se fechar os olhos agora, ainda consigo ouvir a valsa a rodopiar dentro da minha cabeça. É a música que transforma o simples ato de atirar pedras à água no Canal Saint-Martin num épico momento de introspeção existencial.

No fim, saio do filme a sentir-me um pouco como a Amélie: ligeiramente deslocado, mas com uma vontade repentina de tomar atenção às pequenas coisas. Talvez a beleza do cinema seja precisamente esta: não conseguirmos explicar por que razão um filme é bom, mas sabermos exatamente a forma como ele nos faz querer ser pessoas um bocadinho mais atentas ao mundo.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

OCEAN'S ELEVEN (2001)


Sejamos honestos: Ocean's Eleven (2001) é, sem a mais pequena sombra de dúvida, o filme mais cool alguma vez feito. Não tem apenas estilo — respira coolness em cada plano, em cada linha de diálogo e em cada fato feito à medida.

O Brad Pitt (Rusty) passa grande parte do filme a comer qualquer coisa com a maior das naturalidades, transformando o simples ato de petiscar na derradeira demonstração de carisma. O George Clooney (Danny) lança aquele seu olhar profundo e irresistivelmente elegante e, de repente, damos por nós a pensar que provavelmente também aceitaríamos assaltar o cofre de um casino se ele nos pedisse com jeitinho. A Julia Roberts... bem, é a Julia Roberts. Não há muito mais a dizer. Basta existir, sorrir, e a sala passa imediatamente a ser dela. E o Andy Garcia está sempre tão impecavelmente arranjado que quase nos esquecemos de que tem ar de ser o tipo de homem capaz de mandar eliminar alguém apenas com um olhar. A química entre todo o elenco não é apenas boa; devia ser considerada ilegal.

Aquilo de que mais gosto, no entanto, é do ritmo. A história avança com uma fluidez impressionante, sem nunca abrandar ou se perder em explicações desnecessárias. Na maioria dos filmes de assaltos, somos obrigados a esperar pelo grande golpe, mas aqui a preparação, o recrutamento da equipa e toda a logística quase absurda para montar o plano são tão divertidos quanto o próprio assalto.

Steven Soderbergh realiza tudo isto todo confiançudo. A banda sonora com influências jazz, a montagem eletrizante e os diálogos cheios de humor criam um filme incrivelmente elegante sem nunca cair na armadilha de se levar demasiado a sério. Nunca faz um esforço desesperado para parecer cool — e, ironicamente, é precisamente por isso que é tão cool.

É elegante, muito divertido, inteligente como poucos e simplesmente impossível de não adorar.

SUPERGIRL (2026)


Quando ouvi qual era realmente a premissa de Supergirl, pensei sinceramente: "É isto. É este o meu tipo de filme de super-heróis."

Gostei bastante do Superman do James Gunn e uma das estrelas desse filme foi o Krypto, o cão. Por isso, fazer com que a missão principal da "sequela" fosse "salvar o supercão envenenado indo à procura do antídoto" pareceu-me uma ideia perfeita. Nada de raios gigantes a atravessar o céu. Nada de catástrofes capazes de destruir o universo. Nada de partidas de xadrez multidimensional entre deuses cósmicos. Apenas... salvar o cão.

Sinceramente? Para mim, isso basta.

Cheguei a um ponto em que, muitas vezes, gosto mais dos filmes de super-heróis quando o que está em causa é algo mais simples. Salvar o mundo é muito bonito, mas depois do décimo quinto apocalipse em vinte anos, salvar um único bicho parece, de alguma forma, muito mais importante.

Infelizmente, Supergirl parece não confiar na sua própria premissa.

Em vez de se manter fiel a esta história deliciosamente simples, vai acumulando subtramas, mais planetas, mais CGI, mais personagens, mais coisas a voar através de portais coloridos... até que o filme começa a dar a sensação de que entrou, por engano, em três filmes de super-heróis diferentes ao mesmo tempo.

A ironia é que a sua maior qualidade estava ali desde o início. Uma aventura simples, perseguindo criminosos para salvar um cão. Porque é que isso não chegou?

A Milly Alcock é bastante cativante no papel de Supergirl e tem carisma de sobra, mas nem ela consegue suportar totalmente o peso de um argumento que está constantemente a distrair-se com as suas próprias ideias. Faz o melhor que pode, mas o carisma só consegue resolver até certo ponto.

Nem tudo são más notícias, no entanto. A banda sonora é absolutamente fantástica. Quase me fez esquecer que estava a ver uma missão de salvamento de um cão perdida no meio da burocracia do espaço profundo.

No fim de contas, Supergirl não é um mau filme — é apenas um filme frustrante. Tinha todos os ingredientes para ser uma aventura de ficção científica empolgante e cheia de coração, mas acabou por complicar demasiado aquilo que podia ter sido tão simples. É perfeitamente aceitável, mas, foda-se... podia ter sido muito melhor.

quinta-feira, 30 de julho de 2026

DRIVE (2011)


Drive
é normalmente o tipo de filme que me faz revirar os olhos. Sabem aqueles filmes super estilizados, em que toda a gente fica cinco minutos a olhar para o horizonte e metade dos diálogos é substituída por silêncios carregados de significado? Regra geral, isso é a receita perfeita para eu começar a ver quanto tempo ainda falta até aos créditos.

Mas, por alguma razão, Drive entrou-me no goto.

A história é, na verdade, bastante simples, mas transborda emoção. A personagem do Ryan Gosling — o The Driver (honestamente, nem me lembro se alguma vez dizem o nome dele) — tem uma postura quase robótica e distante que, à partida, não deveria resultar. No entanto, encaixa na perfeição na atmosfera do filme. À medida que vai "convivendo" com a vizinha e o filho dela, percebemos que existe um enorme coração escondido por detrás daquele olhar perdido no vazio. A relação entre eles tocou-me genuinamente, e não estava nada à espera disso num filme em que o protagonista passa cerca de 80% do tempo com cara de quem está quase a fazer cocó.

Depois há a violência. Quando acontece... bem, acontece mesmo. É gráfica, brutal e explícita. Ainda assim, nunca parece violência gratuita. Cada explosão de violência surge exatamente quando deve surgir, chocando-nos sem cair na tentação do gore pelo gore.

E falar de Drive sem mencionar a fotografia e a banda sonora devia ser ilegal. Complementam-se de forma tão perfeita que quase se tornam mais uma personagem do filme. As ruas iluminadas por néons, a fotografia onírica das cenas noturnas e aquelas faixas eletrónicas lindas carregadas de sintetizadores, que parecem ter escapado diretamente dos anos 80... tudo isto é puro conforto cinematográfico. O ambiente retro é mesmo irresistível.

É um daqueles raros filmes que prova que o estilo não tem de existir à custa da substância. Drive tem ambos e, de alguma forma, consegue transformar um homem calado a conduzir pelas ruas de Los Angeles numa das experiências emocionais mais envolventes que já tive dentro de um thriller criminal.

terça-feira, 28 de julho de 2026

THE MANDALORIAN AND GROGU (2026)


"The Mandalorian and Grogu" provavelmente não é um filme de que o universo Star Wars estivesse desesperadamente a precisar. A série já existia, era divertida, as pessoas gostavam dela e, sinceramente, ver Din Djarin a ficar silenciosamente a olhar para o horizonte durante 40 minutos de cada episódio funcionava na perfeição na Disney+. Mas, por outro lado… já viram a quantidade de brinquedos do Baby Yoda que existe? Claro que este filme ia acontecer. Algures numa sala de reuniões da Disney, é bem provável que um único peluche do Grogu pague a conta da eletricidade sozinho.

Ainda assim, o filme cumpre na perfeição aquilo a que se propõe: uma aventura espacial simples e direta protagonizada por duas personagens de quem o público gosta genuinamente. Nunca tenta convencer-nos de que é o auge filosófico da ficção científica moderna, e isso acaba por ser bastante refrescante. George Lucas sempre defendeu que Star Wars foi criado, acima de tudo, para crianças, e esse espírito sente-se aqui — da melhor forma possível. Há fantasia, criaturas disparatadas, batalhas com lasers, laços emocionais e o Grogu a fazer alguma parvoíce fofa de dez em dez minutos. Se procuram reflexões profundas sobre fascismo, vigilância e o colapso da democracia, Andor já trata disso (de forma excelente). Este filme quer apenas entreter-vos durante duas horas, e faz exatamente isso.

Ironicamente, os melhores momentos do filme não são as enormes cenas de ação — embora elas existam em abundância, com naves a explodir e disparos de blasters suficientes para levar uma fábrica intergaláctica de munições à falência. O verdadeiro coração emocional da história surge quando o Mandalorian fica inconsciente após uma batalha e o Grogu tem de cuidar dele durante vários dias. Ver este pequeno duende verde do caos a tentar sobreviver, proteger o Din e, pelo meio, roubar uns petiscos enquanto se comporta como uma criança pequena cheia de preocupações é estranhamente comovente. 

A banda sonora também merece um destaque especial. Em vez de simplesmente imitar o estilo orquestral clássico de John Williams, aposta numa atmosfera retro de ficção científica, com fortes influências dos sintetizadores dos anos 80. Por vezes, parece um western espacial realizado por alguém que tem todas as cassetes VHS de Blade Runner e O Bom, o Mau e o Vilão. E, sinceramente, essa combinação resulta na perfeição.

Porque é isso que este filme é, no fundo: um western passado no espaço. Um pistoleiro solitário a vaguear por mundos hostis com o seu companheiro de aventuras estupidamente querido. E eu não tenho problema nenhum com isso. Aliás, quem inventou o fenómeno "Baby Yoda" merece reformar-se numa lua privada algures, porque o Grogu continua a atingir níveis de fofura que deviam ser considerados uma arma. 

Não, "The Mandalorian and Grogu" não reinventa Star Wars. Nem precisa de o fazer. É divertido, encantador, visualmente empolgante, ocasionalmente emotivo e está perfeitamente consciente de que, por vezes, tudo o que as pessoas querem é um cowboy de armadura beskar a viajar pelo espaço com um pequeno filho verde que passa o tempo a cometer pequenos delitos.

segunda-feira, 27 de julho de 2026

DISCLOSURE DAY (2026)


Steven Spielberg já acumulou créditos suficientes para esta vida e para as próximas três. Quando és o homem que nos deu Tubarão, E.T. – O Extraterrestre, Parque Jurássico, Indiana Jones, Encontros Imediatos do Terceiro Grau, A Lista de Schindler, O Resgate do Soldado Ryan, Minority Report, Apanha-me Se Puderes, As Aventuras de Tintim, Munique, Lincoln e West Side Story, ganhas o direito de falhar o alvo de vez em quando. Felizmente, Disclosure Day não é um desses casos.

O maior problema de Disclosure Day nem sequer é o filme em si. É o marketing. Os trailers e a campanha promocional venderam ao público um tipo de filme, enquanto Spielberg entregou algo bastante diferente. Se entrares na sala de cinema à espera de uma invasão alienígena em grande escala, com naves gigantes a pairar sobre as cidades e a humanidade a lutar pela sobrevivência, é provável que saias desapontado. Mas, sinceramente, Spielberg já fez esse filme com A Guerra dos Mundos. Não estava interessado em repetir-se.

Em vez disso, oferece-nos um thriller político envolto num mistério de ficção científica. Os aliens estão lá, sem dúvida, mas não são os verdadeiros vilões. A verdadeira ameaça vem de nós. A humanidade encontra-se à beira de uma Terceira Guerra Mundial e o filme sugere repetidamente que o nosso maior inimigo sempre foi o medo, a ambição e a incapacidade de cooperar. É uma mensagem deprimente pela sua proximidade à realidade, e talvez seja precisamente por isso que tem mais impacto do que uma frota de OVNIs hostis.

As interpretações são excelentes em toda a linha. Emily Blunt é, mais uma vez, incrivelmente consistente. Nesta altura, estou convencido de que conseguiria interpretar de forma convincente uma comediante de stand-up, uma testemunha aterrorizada, uma agente secreta e a vizinha irritada de alguém, tudo na mesma cena. Aqui, transita com enorme naturalidade entre momentos de humor, medo, vulnerabilidade e tensão, suportando grande parte do peso emocional do filme.

Colin Firth foi a maior surpresa para mim. Estou tão habituado a vê-lo como o cavalheiro encantador que vê-lo a mover-se num território moralmente ambíguo foi quase desconcertante. À primeira vista parece ser o vilão, mas será mesmo? O filme nunca oferece uma resposta fácil. Aliás, uma das suas questões mais interessantes é precisamente se ele estará, afinal, a tentar proteger a humanidade em vez de a manipular.

Essa ambiguidade moral estende-se ao principal dilema ético do filme. Quem tem razão? Aqueles que acreditam que a verdade sobre a existência de vida extraterrestre deve ser partilhada com toda a gente, independentemente das consequências? Ou os que defendem que a humanidade ainda não está preparada para esse conhecimento e que revelá-lo poderá desestabilizar governos, religiões, economias e talvez até a própria civilização? Infelizmente, estas questões nunca são exploradas com a profundidade que mereciam. O mesmo acontece com a forma como o filme aborda a religião. A descoberta de vida extraterrestre inteligente abalaria certamente os alicerces de muitos sistemas de crenças, mas o argumento limita-se a aflorar essa ideia antes de seguir em frente.

Ainda assim, apesar de ter ficado com vontade de ver Spielberg aprofundar mais estes temas, nunca posso dizer que me aborreci. Nem por um segundo. O filme tem um sentido de ritmo notável. Cada revelação conduz naturalmente a uma nova pergunta, cada conversa tem peso, e quando Spielberg decide lembrar toda a gente de que ainda sabe filmar cenas de ação melhor do que muitos realizadores com metade da sua idade, entrega sequências verdadeiramente empolgantes.

A sequência do comboio, em particular, é extraordinária. É tensa, magistralmente coreografada e filmada com uma clareza que parece cada vez mais rara nos grandes blockbusters modernos. Sabemos sempre onde cada personagem está, o que está a acontecer e porque é que isso importa. Um nível de clareza surpreendentemente elevado para os dias de hoje.

No final, Disclosure Day não é o filme de invasão alienígena que muitos esperavam. É mais inteligente, mais contido e muito mais interessado no comportamento humano do que no espetáculo extraterrestre. Isso poderá frustrar alguns espectadores que foram levados a esperar uma coisa e receberam outra. Mas, avaliado pelos seus próprios méritos, continua a ser uma obra cinematográfica envolvente, inteligente e extremamente divertida.

E talvez esse seja o derradeiro truque de Spielberg. Mesmo quando não faz o filme que pensavas estar a comprar bilhete para ver, consegue sempre fazer um que vale a pena ver.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

THE COUNT OF MONTE-CRISTO (2002)

Não via O Conde de Monte Cristo (2002) há muitos anos, mas lembrava-me de ter gostado imenso do filme. Na altura, sabia muito pouco sobre o romance de Alexandre Dumas para além da sua premissa básica. Entretanto, porém, acabei finalmente por ler o livro — e não um livro qualquer. Na minha opinião, O Conde de Monte Cristo é a maior obra de ficção alguma vez escrita. A minha edição tem quase 900 páginas e, de alguma forma, sinto que cada uma delas se justifica plenamente.

Rever o filme de Kevin Reynolds depois de ler o romance acabou por ser uma experiência bastante peculiar.

Por um lado, seria completamente injusto esperar que um filme de Hollywood com apenas duas horas adaptasse fielmente um romance de uma dimensão e complexidade tão extraordinárias. A obra-prima de Dumas está repleta de intrigas elaboradas, conspirações políticas, reflexões filosóficas, inúmeras personagens memoráveis e subtramas suficientes para ocupar várias temporadas de uma série televisiva. Alguma coisa tinha inevitavelmente de ficar pelo caminho.

E fica.

O filme é, acima de tudo, uma produção de Hollywood — e digo-o sem qualquer intenção de elogio ou crítica; é apenas uma constatação. Simplifica a história, transformando-a num relato de vingança mais direto e extremamente divertido. A premissa permanece intacta: Edmond Dantès é injustamente preso, passa quase quinze anos encarcerado, consegue escapar, descobre um tesouro, reinventa-se como o Conde de Monte Cristo e parte em busca de vingança contra aqueles que destruíram a sua vida.


Continua a ser uma história fantástica. Aliás, sejamos justos: se Dumas tivesse escrito apenas isso, a maioria dos autores ficaria mais do que satisfeita em dar a carreira por concluída.

No entanto, as camadas mais profundas do romance são significativamente reduzidas. A conspiração que conduz Dantés à prisão é simplificada. Muitas das relações entre as personagens perdem a sua complexidade e algumas desaparecem por completo — como se os realizadores tivessem olhado para a lista de personagens e dito: «Nem pensar, não vamos explicar isto tudo.» A própria vingança torna-se muito mais direta e convencional. O abade Faria, uma das figuras mais fascinantes do romance, desempenha um papel mais reduzido e menos rico em nuances. Mais importante ainda, Edmond Dantés transforma-se num herói muito mais tradicional.

No romance, Dantés é uma personagem muito mais estranha e moralmente ambígua. Enquanto Conde, parece muitas vezes menos um homem do que um instrumento do destino, encarregado de cumprir um desígnio maior que nem ele próprio consegue controlar plenamente. A sua busca por vingança levanta questões morais difíceis, e o livro obriga constantemente o leitor a perguntar-se se justiça e vingança são realmente a mesma coisa. O filme, compreensivelmente, demonstra muito menos interesse por estas complicações filosóficas. Prefere duelos de espada, confrontos dramáticos e momentos de recompensa emocional — que, convenhamos, também são bastante satisfatórios.

Ver o filme depois de ler o livro é, por isso, um pouco como visitar uma magnífica maqueta de uma catedral que já tivemos oportunidade de explorar na realidade. A forma é imediatamente reconhecível, muitos dos elementos essenciais continuam presentes e o resultado continua a ser impressionante. Mas desapareceram alas inteiras, passagens escondidas e inúmeros detalhes de grande riqueza.

Ainda assim, gostei muito de o rever. O elenco é excelente, o ritmo raramente abranda e o filme consegue manter-se cativante do princípio ao fim. Enquanto adaptação do romance de Dumas, deixa de fora grande parte daquilo que torna o livro verdadeiramente extraordinário. Enquanto filme de aventuras autónomo, porém, é um sucesso assinalável.

No fim de contas, quem vir apenas o filme ficará a conhecer a história essencial de Edmond Dantés. Aquilo que perderá é grande parte da profundidade psicológica, política e moral que fez do romance de Dumas um dos clássicos mais influentes da história da literatura.

Por outro lado, se o filme inspirar nem que seja um pequeno número de espectadores a pegar no livro, talvez tenha prestado um serviço maior do que qualquer adaptação alguma vez poderia ambicionar. Afinal, depois de se ler O Conde de Monte Cristo, qualquer adaptação está inevitavelmente condenada a ser apenas uma versão abreviada.

THE ODYSSEY (2026)

 


Christopher Nolan é um daqueles realizadores que nos continua a lembrar que o génio e o "mas que merda é esta?" podem coexistir alegremente na mesma filmografia. Num dia oferece-nos The Prestige, um dos maiores truques de magia alguma vez levados ao grande ecrã. No dia seguinte lança algo como Interstellar, e de repente damos por nós a pensar se não precisamos de um doutoramento em física quântica só para perceber porque é que tanta gente insiste que aquilo é uma obra-prima. Felizmente, The Odyssey enquadra-se claramente na primeira categoria.

Em nome da mais pura sinceridade: nunca li o poema original de Homero, nem sou nenhum especialista em mitologia grega. Por isso, não vou fingir que consigo avaliar o quão fiel esta adaptação é ao material de origem. Vou avaliar o filme que Nolan fez.

Ao início, admito que fiquei um pouco à nora. A forma como Nolan decidiu dar início à estrutura narrativa pareceu-me algo desconcertante. Mas, assim que o meu cérebro finalmente entrou no ritmo da mecânica da sua narrativa, rendi-me por completo à grandiosidade épica de tudo aquilo.

Esta é, claro, a longa viagem de regresso a casa de Ulisses, mas o percurso é tão mental quanto geográfico. O arco da personagem é extraordinário: desenrola-se menos como uma simples viagem e mais como uma desesperada demanda psicológica por absolvição de todos os traumas e males que provocou. Cada episódio e cada encontro com monstros ao longo do caminho foi absolutamente fascinante. O filme tem três horas e, sinceramente, não olhei para o relógio uma única vez.

O elenco é fenomenal do princípio ao fim. Matt Damon carrega esta enorme epopeia com uma facilidade impressionante, conferindo a Ulisses tanto imponência como vulnerabilidade. Anne Hathaway rouba completamente as cenas sempre que aparece no ecrã — podem começar já a gravar o nome dela nos prémios. A maior surpresa para mim, no entanto, foi John Leguizamo. Independentemente do papel que interprete, haverá sempre uma parte do meu cérebro a gritar: "É o Luigi Mario!" Ainda assim, conseguiu conquistar-me por completo nesta interpretação.

A única escolha de elenco que nunca me convenceu totalmente foi Tom Holland. Talvez esteja a ser picuinhas. Ele entrega-se de corpo e alma ao papel e faz um excelente trabalho, mas tem um grande problema: é demasiado bonitinho. O seu ar de estrela de boys band e o seu aspecto impecável pareceram-me completamente deslocados neste mundo antigo, rude e implacável.

Visualmente, este filme é um triunfo absoluto e prova um ponto que defenderei aos sete ventos: é isto que acontece quando se constroem cenários reais, se fabricam navios de verdade, se filma em locais reais e se manda o CGI para o caralhinho mais velho (expressão técnica usada na minha terra)! Tudo transmite uma sensação de autenticidade palpável. Quase conseguimos sentir o sabor da água salgada. Podemos criticar Nolan à vontade. Podemos dizer que é só estilo e pouca substância. Mas ninguém pode negar que o homem está praticamente sozinho a tentar manter vivo o espírito da Hollywood Clássica. The Odyssey parece o sucessor espiritual moderno de Ben-Hur ou Cleopatra. Parece autêntico, sólido e pesado — um enorme suspiro de alívio quando comparado com os 90% de trampa artificial gerada em ecrãs verdes que Hollywood continua a despejar nos dias de hoje.

sábado, 18 de julho de 2026

MORTAL KOMBAT II (2026)


Mortal Kombat II
consegue, de alguma forma, dar a sensação de que dura três torneios em vez de um. Quase duas horas a despejar lore, regras, reinos, pessoas a morrer, a voltar à vida, meio mortas, meio zombies... a certa altura já só abanava a cabeça e fingia que estava a perceber a história.

O Johnny Cage e o Kano carregaram o filme às costas só com o carisma e a atitude. O resto do pessoal? Fatality.

Depois percebi que o filme original dos anos 90 provavelmente só me parecia a melhor coisa de sempre porque eu tinha 14 anos. Se o tivesse visto pela primeira vez já nos meus 40, provavelmente teria tido exatamente a mesma reação que tive com este. A nostalgia é um golpe final cruel.

Dito isto... quando começaram os créditos e arrancou o tema original de Mortal Kombat, transformei-me instantaneamente outra vez num adolescente completamente eufórico. Foi, basicamente, um orgasmo induzido pela nostalgia.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

EVIL DEAD TRILOGIA (2013 - 2026)

 


EVIL DEAD (2013)

Ainda me lembro da primeira vez que vi Evil Dead (2013). Foi num cinema em Paris e, logo nos primeiros minutos, percebi que este filme tinha uma coragem do caraças. Não era um remake tímido a tentar lucrar com a nostalgia — tinha tomates.

Em vez de tentar imitar o charme disparatado de Evil Dead 2, pegou numa história familiar e levou-a numa direção completamente diferente. A loucura slapstick desapareceu, dando lugar a um terror implacável, gore sem qualquer pudor e uma atitude que parecia dizer: «Até onde é que conseguimos levar isto?» A resposta: sim.

E levaram mesmo. Este filme não tem a mínima vergonha quando se trata de horror extremo. A infame cena em que a floresta… bem… abusa da protagonista? Lembro-me de estar sentado a pensar: «Espera… eles vão mesmo fazer isto?!» Fiquei de boca aberta. Foi chocante, desconfortável e impossível de esquecer.

Essa é, provavelmente, a melhor palavra para descrever toda a experiência: completamente tresloucada. Não no sentido de ser parva, mas porque os realizadores abraçaram a loucura a 100% e nunca recuaram. Cada morte brutal, cada litro de sangue, cada sequência arrepiante parece desafiar-nos a desviar o olhar.

Goste-se ou não, Evil Dead (2013) merece reconhecimento por se recusar a jogar pelo seguro. Não se limita a refazer um clássico — desfá-lo em pedaços, encharca-o em sangue e mostra-nos orgulhosamente o resultado com o maior e mais demoníaco sorriso imaginável.




EVIL DEAD RISE (2023)

Evil Dead Rise prova finalmente que os Deadites não precisam de uma cabana assustadora no meio da floresta para estragar o dia a alguém — ficam perfeitamente satisfeitos num prédio degradado. Claro que, por razões conhecidas apenas pelos realizadores, ainda arranjaram maneira de encaixar duas cenas (a abertura e o final) que pouco ou nada têm a ver com a história principal, só para poderem dizer: «Olhem! Ainda há uma cabana na floresta!»

O enredo é tão simples quanto qualquer filme de Evil Dead deve ser: alguém lê o Livro dos Mortos, os demónios são libertados, as pessoas ficam possuídas e pronto, ninguém se diverte. Honestamente, é tudo o que eu preciso. Bem… isso e tanques cheios de sangue. E quando digo sangue, falo de quantidades absurdas. A certa altura, deixamos de perguntar de onde vem tudo aquilo e limitamo-nos a admirar o compromisso.

Não tem propriamente o mesmo fator de choque do género «Não acredito que eles fizeram mesmo isto» que o filme de 2013, mas, assim que a mãe fica possuída, Alyssa Sutherland rouba completamente o protagonismo. A sua interpretação é perturbadora, completamente desequilibrada e estranhamente divertida — quase nos esquecemos de que está a tentar assassinar os próprios filhos.

O filme é muito bem realizado, os efeitos práticos são fantásticos e, embora o sangue digital por vezes exagere um pouco, nunca estraga a diversão. Evil Dead Rise não reinventa o género de terror, mas sabe exatamente o que é: uma gloriosa montanha-russa caótica, encharcada em sangue, muito mais interessada em entreter do que em fingir ser profunda. E, por vezes, é exatamente isso que um filme de Evil Dead deve ser.




EVIL DEAD BURN (2026)

Acho que já podemos dizer, sem grandes dúvidas, que esta nova trilogia ganhou oficialmente identidade própria. Deliberadamente, coloco os clássicos de Bruce Campbell e Sam Raimi numa categoria completamente à parte porque, sinceramente, parecem pertencer a um universo diferente em termos de tom.

Então, onde encaixa Evil Dead Burn? Para mim, fica em último lugar no ranking desta trilogia moderna — mas isso é muito mais um elogio do que uma crítica. A fasquia já estava altíssima. Se alguém me tivesse dito de antemão que o «pior» filme da trilogia ainda me deixaria mental e fisicamente exausto quando chegassem os créditos finais, teria assinado logo por baixo.

O filme oferece exatamente aquilo que espero de um Evil Dead: baldes de sangue, gore prático exagerado, brutalidade constante e demónios que claramente faltaram a todas as sessões de controlo da raiva. Dito isto, apesar de existirem vários Deadites memoráveis, não acho que nenhum consiga roubar as atenções da mesma forma que a mãe em Evil Dead Rise. Ela continua a ser o verdadeiro padrão de referência quando falamos de combustível para pesadelos nesta trilogia moderna.

Uma coisa que Burn faz melhor do que os seus antecessores é abraçar o humor. Não ao ponto de se transformar numa comédia, mas o suficiente para tornar toda a carnificina ainda mais divertida. Há uma personagem (a avó) que funciona praticamente como comic-relief, e fiquei surpreendido com a naturalidade com que se integra na história.

E aquele último ato… caos absoluto. Do bom. Quando apareceram os créditos finais, senti genuinamente que tinha sobrevivido a qualquer coisa, em vez de simplesmente assistir a um filme.

Visualmente, mantém a atmosfera suja e opressiva que tem definido esta nova fase de Evil Dead, com uma cinematografia elegante que nunca deixa que o caos se torne confuso. Cada sequência parece cuidadosamente construída para maximizar a tensão antes de libertar a mais completa insanidade. O elenco também se entrega de corpo e alma à loucura, exatamente como esta saga exige.

No geral, mesmo ocupando, para já, o terceiro lugar no meu ranking desta trilogia moderna, isso deve-se apenas ao facto de os outros dois filmes terem estabelecido um nível muito elevado. Ainda assim, este merece plenamente o seu lugar porque faz exatamente aquilo que um Evil Dead deve fazer: fazer-me rir, fazer-me estremecer, fazer-me questionar as escolhas de vida de toda a gente e deixar-me completamente esgotado quando tudo termina. Missão cumprida.