sábado, 29 de agosto de 2026

THE AMAZING SPIDERMAN 2 (2014)


Sinceramente, não percebo muito bem porque é que The Amazing Spider-Man 2 é tão odiado. A sério. Sempre que revejo este filme, fico com a sensação de que devo ter visto uma versão completamente diferente daquela que toda a gente viu. É confuso? É. Tem demasiadas coisas? Sem dúvida. É um filme perfeito? Nem de perto. Mas é mau? Não. Nem por sombras.

Na verdade, arrisco-me a dizer uma coisa que provavelmente me vai valer alguns comentários furiosos: The Amazing Spider-Man 2 é tão bom como o primeiro filme e, em alguns aspetos, até consegue ser melhor.

Para começar, temos uma coisa que um filme de super-heróis convém ter: vilões memoráveis.

O Electro é simplesmente brutal. O visual, os poderes, a forma como interage com a eletricidade e com toda a rede elétrica de Nova Iorque… há qualquer coisa de deliciosamente exagerado na personagem. E Jamie Foxx percebeu perfeitamente que a subtileza não tinha sido convidada para este filme.

E ainda bem.

Isto é um filme do Homem-Aranha. Quero um homem azul luminoso a disparar eletricidade pelos dedos e a causar o caos em Nova Iorque. Se eu quisesse realismo, provavelmente estaria a ver um documentário sobre IRS ou a ler os termos e condições do meu seguro automóvel.

E depois temos o Duende Verde.

A transformação do Harry Osborn funciona porque as consequências emocionais são muito mais fortes do que o habitual “vilão quer destruir a cidade porque sim”. O Harry não é apenas mais um tipo que aparece para levar porrada do Homem-Aranha durante 15 minutos. É o melhor amigo de infância do Peter, está desesperado e obcecado em encontrar uma cura para a doença que herdou do pai.

De repente, temos um conflito pessoal.

E isso dá muito mais peso à história.

Mas, obviamente, o verdadeiro coração do filme está na relação entre Peter e Gwen.

A dinâmica dos dois — “estamos juntos?”, “não estamos juntos?”, “amamo-nos mas talvez não devêssemos estar juntos porque a vida do Peter é uma gigantesca catástrofe ambulante?” — funciona bastante bem.

Porque, no fundo, é uma relação credível. São duas pessoas que se amam genuinamente, mas que percebem que namorar com o Homem-Aranha é provavelmente uma das piores decisões possíveis quando se procura estabilidade emocional.

E Andrew Garfield e Emma Stone são simplesmente excelentes juntos.

A química entre os dois é tão natural que nunca parecem dois atores a recitar diálogos românticos porque o argumento decidiu.

Parecem realmente um casal.

Há espontaneidade, humor, cumplicidade e uma enorme carga emocional entre os dois. E é tão convincente que, durante alguns momentos, quase nos esquecemos de que estamos a ver um filme sobre um homem vestido com um fato vermelho e azul a balançar-se por Nova Iorque.

E depois chega aquela cena.

A morte da Gwen continua a ser absolutamente devastadora.

Não há salvamento milagroso no último segundo. Não há uma solução conveniente graças ao Sentido-Aranha. Não há um “afinal ela está bem!” tirado da cartola. O Peter tenta salvá-la.

E falha.

É isso que torna o momento tão poderoso. Pela primeira vez, o Homem-Aranha não consegue salvar a pessoa que mais ama. E as consequências desse fracasso são enormes.

O problema é que, para mim, o filme acaba por sofrer de uma coisa que nem sequer é totalmente culpa dele: precisava da sequela que nunca tivemos.

Era suposto vermos o que a morte da Gwen faria ao Peter. Como aquele trauma o iria transformar. Como iria afetar a sua relação com o facto de ser o Homem-Aranha. Como iria conseguir ultrapassar aquilo.

Mas a Sony decidiu seguir outro caminho e acabou por cancelar a continuação planeada.

Resultado: ficámos com um arco emocional que parece ter sido interrompido a meio de uma frase.

E é uma pena.

Porque Andrew Garfield estava fantástico como Peter Parker.

Já o disse antes e volto a dizê-lo: Andrew Garfield é o meu Homem-Aranha live-action favorito. E este filme é provavelmente o melhor argumento para defender essa escolha.

O Peter de Garfield é engraçado, desajeitado, carismático e extremamente vulnerável. Consegue ser o Homem-Aranha cheio de piadas num minuto e, no seguinte, um ser humano completamente destruído emocionalmente.

E Garfield vende tudo isso.

É uma interpretação que consegue juntar o lado divertido do personagem com uma fragilidade que, especialmente neste filme, se torna cada vez mais evidente.

Também acho que o filme merece mais crédito pelas suas sequências de ação.

Logo no início, temos o Homem-Aranha a parar um camião em plena cidade, numa sequência que é puro espetáculo de banda desenhada. E o confronto final com o Electro é visualmente impressionante.

Marc Webb percebeu uma coisa muito importante: o Homem-Aranha devia parecer divertido a ser o Homem-Aranha.

E Andrew Garfield transmite isso na perfeição. Os movimentos, os balanços, a forma como se desloca entre os edifícios… há uma naturalidade física na sua interpretação que faz com que pareça realmente alguém que nasceu para fazer aquilo.

É um Homem-Aranha que parece estar a divertir-se.

Mesmo quando está a salvar o mundo.

Há, no entanto, um problema que é impossível ignorar.

Há simplesmente filme a mais dentro deste filme.

Temos o Electro.

Temos o Harry.

Temos o Peter e a Gwen.

Temos o Peter a investigar o passado dos pais.

Temos a Oscorp.

Temos a Tia May.

Temos o Rhino.

Temos provavelmente mais três ou quatro histórias secundárias que alguém se esqueceu de cortar.

É material suficiente para três filmes e, se apertarmos um bocadinho, ainda dá para uma minissérie de seis episódios na Disney+.

Apesar de tudo isto, continuo a divertir-me imenso com The Amazing Spider-Man 2.

Talvez seja porque o filme não tem vergonha nenhuma de mostrar o coração que tem.

Talvez seja porque Andrew Garfield e Emma Stone são simplesmente excelentes juntos.

Talvez seja porque o filme percebe que o Homem-Aranha funciona melhor quando conseguimos equilibrar o espetáculo de super-heróis com a vida pessoal de Peter Parker.

Ou talvez eu seja simplesmente imune ao consenso da Internet.

Seja qual for a razão, acho que The Amazing Spider-Man 2 merece uma reavaliação séria.

É confuso. É sobrecarregado. Tem demasiadas personagens, demasiadas histórias e demasiadas coisas a acontecer ao mesmo tempo. E, por vezes, é completamente absurdo.

Mas também é divertido, emocional, romântico, visualmente impressionante e, sobretudo, surpreendentemente trágico.

Pode não ser o filme perfeito.

Mas está muito, muito longe de ser o desastre que a sua reputação faz parecer.

E, sinceramente, depois de rever este filme, continuo sem perceber porque é que tanta gente decidiu que era altura de atirar o Amazing Spider-Man 2 para o caixote do lixo da história.


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