segunda-feira, 20 de julho de 2026

THE ODYSSEY (2026)

 


Christopher Nolan é um daqueles realizadores que nos continua a lembrar que o génio e o "mas que merda é esta?" podem coexistir alegremente na mesma filmografia. Num dia oferece-nos The Prestige, um dos maiores truques de magia alguma vez levados ao grande ecrã. No dia seguinte lança algo como Interstellar, e de repente damos por nós a pensar se não precisamos de um doutoramento em física quântica só para perceber porque é que tanta gente insiste que aquilo é uma obra-prima. Felizmente, The Odyssey enquadra-se claramente na primeira categoria.

Em nome da mais pura sinceridade: nunca li o poema original de Homero, nem sou nenhum especialista em mitologia grega. Por isso, não vou fingir que consigo avaliar o quão fiel esta adaptação é ao material de origem. Vou avaliar o filme que Nolan fez.

Ao início, admito que fiquei um pouco à nora. A forma como Nolan decidiu dar início à estrutura narrativa pareceu-me algo desconcertante. Mas, assim que o meu cérebro finalmente entrou no ritmo da mecânica da sua narrativa, rendi-me por completo à grandiosidade épica de tudo aquilo.

Esta é, claro, a longa viagem de regresso a casa de Ulisses, mas o percurso é tão mental quanto geográfico. O arco da personagem é extraordinário: desenrola-se menos como uma simples viagem e mais como uma desesperada demanda psicológica por absolvição de todos os traumas e males que provocou. Cada episódio e cada encontro com monstros ao longo do caminho foi absolutamente fascinante. O filme tem três horas e, sinceramente, não olhei para o relógio uma única vez.

O elenco é fenomenal do princípio ao fim. Matt Damon carrega esta enorme epopeia com uma facilidade impressionante, conferindo a Ulisses tanto imponência como vulnerabilidade. Anne Hathaway rouba completamente as cenas sempre que aparece no ecrã — podem começar já a gravar o nome dela nos prémios. A maior surpresa para mim, no entanto, foi John Leguizamo. Independentemente do papel que interprete, haverá sempre uma parte do meu cérebro a gritar: "É o Luigi Mario!" Ainda assim, conseguiu conquistar-me por completo nesta interpretação.

A única escolha de elenco que nunca me convenceu totalmente foi Tom Holland. Talvez esteja a ser picuinhas. Ele entrega-se de corpo e alma ao papel e faz um excelente trabalho, mas tem um grande problema: é demasiado bonitinho. O seu ar de estrela de boys band e o seu aspecto impecável pareceram-me completamente deslocados neste mundo antigo, rude e implacável.

Visualmente, este filme é um triunfo absoluto e prova um ponto que defenderei aos sete ventos: é isto que acontece quando se constroem cenários reais, se fabricam navios de verdade, se filma em locais reais e se manda o CGI para o caralhinho mais velho (expressão técnica usada na minha terra)! Tudo transmite uma sensação de autenticidade palpável. Quase conseguimos sentir o sabor da água salgada. Podemos criticar Nolan à vontade. Podemos dizer que é só estilo e pouca substância. Mas ninguém pode negar que o homem está praticamente sozinho a tentar manter vivo o espírito da Hollywood Clássica. The Odyssey parece o sucessor espiritual moderno de Ben-Hur ou Cleopatra. Parece autêntico, sólido e pesado — um enorme suspiro de alívio quando comparado com os 90% de trampa artificial gerada em ecrãs verdes que Hollywood continua a despejar nos dias de hoje.

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