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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A CINDERELLA STORY (2004)


Há filmes que pegam num conto de fadas clássico e tentam reinventá-lo para os tempos modernos. E depois há A Cinderella Story, que olhou para a Cinderela, consultou provavelmente uma revista Bravo de 2004 e decidiu:

“E se ela tivesse um telemóvel, trabalhasse num diner e o príncipe fosse o capitão da equipa de futebol americano?”

E pronto.

Nasceu isto.

Não sei se alguém pediu, mas respeito a dedicação.

Lançado em 2004, A Cinderella Story é a Cinderela para uma geração que cresceu com telemóveis de abrir, MSN Messenger, Hi5, calças de cintura descida (epa, o que eu gostava de olhar para elas) e aquela fase maravilhosa em que ter uma fotografia com os olhos vermelhos tirada com uma webcam de 0,3 megapixéis era considerado conteúdo digital.

É um filme tão início dos anos 2000 que quase esperamos que alguém entre em cena a dizer “manda-me um toque” e a seguir cobre 50 cêntimos por isso.

A história é a mesma de sempre.

Temos Sam Montgomery, a nossa Cinderela, uma rapariga gira que se farta, inteligente e simpática que, por algum motivo, é tratada como se fosse a empregada de limpeza da escola.

E aqui começa a primeira grande fantasia do filme.

Sam é interpretada por Hilary Duff.

A mulher aparece no ecrã e o filme quer convencer-nos de que ninguém repara nela.

Desculpem, mas isto é mais difícil de engolir do que o preço de uma bica no centro de Lisboa.

Estamos a falar de Hilary Duff. Uma pessoa que podia entrar numa escola secundária americana, tropeçar numa mochila e, cinco minutos depois, haveria pelo menos três clubes de fãs.

Mas não.

Para os adolescentes deste filme, ela é invisível.

Porque, aparentemente, se não tiveres roupa cara, amigos populares e uma posição elevada na hierarquia social do liceu, és basicamente um sem-abrigo.

A escola funciona como uma espécie de Parlamento, com as cheerleaders no Governo, os jogadores de futebol na oposição e os restantes alunos a tentarem sobreviver.

E dinheiro.

Muito dinheiro.

Porque, como todos sabemos, a verdadeira moral da Cinderela é: sê boa pessoa, trabalha arduamente e talvez um dia apareça um príncipe.

Aqui é mais:

“Se não tens dinheiro e não és popular, prepara-te para levar com bullying até aos 18.”

Sam vive com a madrasta e as duas meias-irmãs, que são tão maléficas que só falta terem uma cave onde guardam crianças órfãs.

E depois temos Austin Ames, o nosso Príncipe Encantado, interpretado por Chad Michael Murray.

E aqui o filme começa a perder completamente o contacto com a realidade.

Porque Chad Michael Murray em 2004 não parecia um adolescente.

Parecia um modelo da Calvin Klein que tinha sido sequestrado e obrigado a frequentar o liceu.

Austin é bonito.

É popular.

É capitão da equipa de futebol.

Namora com a rapariga mais popular da escola.

Tem cabelo perfeito.

Tem problemas com o pai.

É sensível.

E escreve poesia.

Claro que escreve poesia.

Porque nada representa melhor um jogador de futebol americano adolescente do que passar o treino a placar adversários contra uma parede e depois chegar a casa para escrever:

“Os teus olhos são como estrelas…”

Enquanto olha tristemente pela janela.

É o equivalente americano de um jovem de 17 anos em Portugal jogar futebol no União de Leiria e depois ir para casa ouvir Coldplay enquanto escreve poemas num caderno da Ambar (referências datadas?? who cares?)

E, claro, Austin apaixona-se por Sam através da Internet sem saber quem ela é.

Porque estamos em 2004.

Uma época em que duas pessoas podiam falar durante semanas através de mensagens sem saber o nome completo uma da outra.

Hoje isso duraria aproximadamente seis minutos.

“Olá, quem és?”

“Não posso dizer.”

“Ok, bloqueado.”

Mas em 2004?

Era ROMÂNTICO.

Era MISTERIOSO.

Era SEXY.

Era basicamente o Tinder sem fotografias e com muito mais risco de encontrares alguém que afinal era um senhor de 47 anos.

E aqui entra a modernização da Cinderela.

O sapatinho de cristal passa a ser um telemóvel.

O baile é uma festa de Halloween.

A carruagem de abóbora é um Mercedes.

E a fada-madrinha é um grupo de empregados de um diner que aparentemente não têm nada melhor para fazer durante o turno do que organizar a vida amorosa de uma adolescente.

“Temos clientes à espera.”

“Sim, mas a Sam precisa de encontrar o amor.”

É um argumento sólido.

O filme, entretanto, vai passando por todos os clichés possíveis do romance adolescente de 2004.

Rapariga bonita que não sabe que é bonita? Check.

Rapaz popular com problemas emocionais? Check.

Namorada rica, bonita e completamente psicótica? Check.

Melhor amigo estranho? Check.

Meias-irmãs invejosas? Check.

Hierarquia social do liceu tratada como se estivéssemos perante uma mistura de Morangos com Açúcar e Succession? Check.

E há uma coisa que me fascina particularmente neste tipo de filmes:

Ninguém sabe comunicar.

Ninguém.

Toda a história poderia ser resolvida numa conversa de quatro minutos.

Mas não. Isso seria demasiado simples.

Portanto, passam cerca de 90 minutos a esconder identidades, a mentir, a fugir, a interpretar mensagens de forma errada e a tomar decisões que fariam qualquer espectador português gritar para o ecrã:

“MAS FALA COM O GAJO, CARALHO!”

E nós sabemos tudo o que vai acontecer.

Sabemos que Sam e Austin vão apaixonar-se.

Sabemos que a namorada popular é uma besta.

Sabemos que as meias-irmãs e madrasta vão ter aquilo que merecem.

Sabemos que haverá uma grande revelação.

Sabemos que vai chover.

Sabemos que alguém vai correr dramaticamente.

Sabemos que haverá lágrimas.

E sabemos que, a certa altura, a banda sonora vai começar a tocar como se alguém tivesse acabado de descobrir a cura para o cancro.

SENTIMENTOS!

AMOR!

DESTINO!

HILARY DUFF A CORRER À CHUVA! (esta parte adoro)

Não há aqui uma única reviravolta.

Este filme tem menos surpresas do que uma ida à Segurança Social numa segunda-feira de manhã.

Mas, estranhamente, eu não me importo.

Porque A Cinderella Story é exactamente aquilo que parece: um filme estúpido, previsível, lamechas e tão descaradamente adolescente que acaba por se tornar genuinamente simpático.

E há uma coisa chamada nostalgia que é uma filha da mãe extremamente poderosa.

Porque podemos olhar para este filme e pensar:

“Meu Deus, que coisa ridícula.”

E, cinco minutos depois:

“Porra, eu lembro-me disto.”

É como encontrar uma velha conta do Hi5 ou uma fotografia de 2005 com gel no cabelo e perceber que, apesar de tudo, sobrevivi.

Hilary Duff é uma enorme parte desse encanto.

Ela tem aquele ar de "girl next door" que torna Sam imediatamente simpática.

E depois temos Chad Michael Murray. Algures em 2004, milhares de adolescentes deveriam ficar molhadas só de olhar para ele.

É impressionante.

Austin é basicamente a fantasia adolescente feminina transformada em ser humano.

Jogador de futebol.

Bonito.

Sensível.

Poeta.

Traumatizado.

Pai complicado.

Romântico.

Só faltava dizer que também sabe cozinhar e que uma vez salvou um cão de um incêndio. E os argumentistas provavelmente só não incluíram isso porque o filme já tinha 88 minutos.

Jennifer Coolidge, entretanto, está completamente noutra dimensão.

A mulher não interpreta a madrasta. A mulher é possuída pela madrasta.

Está a representar a 300 quilómetros por hora enquanto o resto do elenco tenta simplesmente acompanhar.

E eu respeito. Muito.

Mas talvez a melhor personagem de A Cinderella Story seja o próprio ano de 2004.

Porque este filme é um museu ambulante.

A roupa.

Os cabelos.

Os telemóveis.

A Internet.

O MSN.

Os computadores.

As mensagens.

As pessoas a encontrarem-se online sem qualquer mecanismo de segurança.

Tudo grita 2004.

É quase possível sentir o cheiro a Morangos com Açúcar enquanto vemos isto. E há algo genuinamente adorável nessa simplicidade.

Hoje em dia, um filme destes provavelmente teria uma dúzia de referências à cultura da Internet, personagens autoconscientes, piadas sobre redes sociais e alguém a dizer “isso é tão cringe”.

Aqui não.

O filme simplesmente quer ser romântico. Quer ser lamechas. Quer fazer adolescentes suspirar. E não tem vergonha nenhuma disso. E, sinceramente, respeito.

Porque há qualquer coisa refrescante num filme que não está constantemente a tentar provar que é inteligente.

A Cinderella Story sabe que é um conto de fadas. Sabe que é previsível. Sabe que é ridículo. E segue em frente.

É quase como comer uma francesinha às três da manhã depois de uma noite de copos: sabes perfeitamente que não é uma decisão racional, mas naquele momento parece a melhor ideia do mundo.

É previsível?

Como o Natal.

É lamechas?

O suficiente para precisar de insulina.

As personagens são clichés ambulantes?

Sem qualquer dúvida.

A história podia ser resolvida se alguém tivesse aprendido a comunicar?

Em aproximadamente quatro minutos.

É realista?

Nem por sombras.

Importa-me?

Nem um bocadinho.

Talvez seja a nostalgia a fazer metade do trabalho.

Talvez eu esteja a perdoar ao filme coisas que, noutras circunstâncias, me fariam arrancar os olhos.

Mas a verdade é que me diverti a rever isto.

E, no final, A Cinderella Story é aquilo que sempre quis ser: uma versão adolescente, cor-de-rosa e profundamente 2004 da Cinderela.

Não é uma obra-prima.

Não é original.

Não é particularmente inteligente.

Mas é doce, parvo, nostálgico e tão deliciosamente preso em 2004.

E talvez seja essa a maior qualidade de A Cinderella Story.

Não tenta mudar o mundo.

Não quer ser o próximo grande clássico.

Só quer que desliguemos o cérebro durante hora e meia, recordemos uma época em que os telemóveis tinham antena e o maior problema da nossa vida era alguém ter-nos bloqueado no MSN.

E, sinceramente?

Às vezes, um filme não precisa de ser bom. Precisa apenas de nos fazer voltar ao passado durante 90 minutos.

E A Cinderella Story consegue isso.