Estou a rever O Fabuloso Destino de Amélie Poulain e, honestamente, estou naquele estado de suspensão em que já não sei se sou um “crítico de cinema” ou apenas alguém que precisa de um abraço e de uma oportunidade para partir o açúcar queimado de um crème brûlée.
É difícil falar deste filme de forma objetiva. Se me perguntarem se o argumento segue uma estrutura clássica de três atos ou se o ritmo é o ideal, provavelmente vou encolher os ombros. Mas se me perguntarem o que senti... ah, isso já é outra história. Passei aquelas duas horas numa montanha-russa emocional onde a felicidade, a melancolia e a nostalgia decidiram organizar uma festa dentro do meu coração.
Apaixonamo-nos por Amélie logo nos primeiros minutos. Ela tem aquela forma “estranha” de viver — observa o mundo através de um telescópio, enquanto tem medo de sair à rua. Parece flutuar numa espécie de infelicidade tranquila até que, entre cabinas fotográficas e álbuns de fotografias perdidos, encontra o seu grande propósito: tornar-se a fada-madrinha de Montmartre.
E que elenco de “pacientes” ela encontrou:
O Pai: com a sua obsessão pelo gnomo de jardim (que acaba por viajar pelo mundo).
Os colegas do Café des 2 Moulins: desde Georgette, a hipocondríaca, até Joseph, o profissional dos ciúmes que grava tudo o que a ex-namorada diz.
O “Homem de Vidro”: que pinta o mesmo quadro há décadas e nos faz questionar se nós também somos feitos de cristal.
A forma como ela manipula a vida destas pessoas — de maneira doce, mas ligeiramente maquiavélica — é magistral. Quem nunca sonhou vingar-se de um merceeiro mal-educado como o Sr. Collignon, trocando-lhe os chinelos de sítio ou mexendo no despertador?
Sejamos sinceros: a cidade de Paris de Jean-Pierre Jeunet é provavelmente a maior peça de “fake news” da história do cinema, e eu adoro-o por isso. Onde estão os milhões de turistas a atropelarem-se uns aos outros? Onde estão os tipos a vender porta-chaves da Torre Eiffel? Não existem. Até o sem-abrigo tem dignidade, recusando esmolas aos domingos porque “não trabalha aos fins de semana”.
É uma Montmartre filtrada por uma lente amarela e quente, onde tudo é limpo, bucólico e sonhador. É o tipo de mentira que aceitamos de bom grado, porque o mundo real já tem cinzento que chegue.
Não se pode falar de Amélie sem mencionar o acordeão de Yann Tiersen. A banda sonora é quase onírica. Se fechar os olhos agora, ainda consigo ouvir a valsa a rodopiar dentro da minha cabeça. É a música que transforma o simples ato de atirar pedras à água no Canal Saint-Martin num épico momento de introspeção existencial.
No fim, saio do filme a sentir-me um pouco como a Amélie: ligeiramente deslocado, mas com uma vontade repentina de tomar atenção às pequenas coisas. Talvez a beleza do cinema seja precisamente esta: não conseguirmos explicar por que razão um filme é bom, mas sabermos exatamente a forma como ele nos faz querer ser pessoas um bocadinho mais atentas ao mundo.











