segunda-feira, 20 de julho de 2026

THE COUNT OF MONTE-CRISTO (2002)

Não via O Conde de Monte Cristo (2002) há muitos anos, mas lembrava-me de ter gostado imenso do filme. Na altura, sabia muito pouco sobre o romance de Alexandre Dumas para além da sua premissa básica. Entretanto, porém, acabei finalmente por ler o livro — e não um livro qualquer. Na minha opinião, O Conde de Monte Cristo é a maior obra de ficção alguma vez escrita. A minha edição tem quase 900 páginas e, de alguma forma, sinto que cada uma delas se justifica plenamente.

Rever o filme de Kevin Reynolds depois de ler o romance acabou por ser uma experiência bastante peculiar.

Por um lado, seria completamente injusto esperar que um filme de Hollywood com apenas duas horas adaptasse fielmente um romance de uma dimensão e complexidade tão extraordinárias. A obra-prima de Dumas está repleta de intrigas elaboradas, conspirações políticas, reflexões filosóficas, inúmeras personagens memoráveis e subtramas suficientes para ocupar várias temporadas de uma série televisiva. Alguma coisa tinha inevitavelmente de ficar pelo caminho.

E fica.

O filme é, acima de tudo, uma produção de Hollywood — e digo-o sem qualquer intenção de elogio ou crítica; é apenas uma constatação. Simplifica a história, transformando-a num relato de vingança mais direto e extremamente divertido. A premissa permanece intacta: Edmond Dantès é injustamente preso, passa quase quinze anos encarcerado, consegue escapar, descobre um tesouro, reinventa-se como o Conde de Monte Cristo e parte em busca de vingança contra aqueles que destruíram a sua vida.


Continua a ser uma história fantástica. Aliás, sejamos justos: se Dumas tivesse escrito apenas isso, a maioria dos autores ficaria mais do que satisfeita em dar a carreira por concluída.

No entanto, as camadas mais profundas do romance são significativamente reduzidas. A conspiração que conduz Dantés à prisão é simplificada. Muitas das relações entre as personagens perdem a sua complexidade e algumas desaparecem por completo — como se os realizadores tivessem olhado para a lista de personagens e dito: «Nem pensar, não vamos explicar isto tudo.» A própria vingança torna-se muito mais direta e convencional. O abade Faria, uma das figuras mais fascinantes do romance, desempenha um papel mais reduzido e menos rico em nuances. Mais importante ainda, Edmond Dantés transforma-se num herói muito mais tradicional.

No romance, Dantés é uma personagem muito mais estranha e moralmente ambígua. Enquanto Conde, parece muitas vezes menos um homem do que um instrumento do destino, encarregado de cumprir um desígnio maior que nem ele próprio consegue controlar plenamente. A sua busca por vingança levanta questões morais difíceis, e o livro obriga constantemente o leitor a perguntar-se se justiça e vingança são realmente a mesma coisa. O filme, compreensivelmente, demonstra muito menos interesse por estas complicações filosóficas. Prefere duelos de espada, confrontos dramáticos e momentos de recompensa emocional — que, convenhamos, também são bastante satisfatórios.

Ver o filme depois de ler o livro é, por isso, um pouco como visitar uma magnífica maqueta de uma catedral que já tivemos oportunidade de explorar na realidade. A forma é imediatamente reconhecível, muitos dos elementos essenciais continuam presentes e o resultado continua a ser impressionante. Mas desapareceram alas inteiras, passagens escondidas e inúmeros detalhes de grande riqueza.

Ainda assim, gostei muito de o rever. O elenco é excelente, o ritmo raramente abranda e o filme consegue manter-se cativante do princípio ao fim. Enquanto adaptação do romance de Dumas, deixa de fora grande parte daquilo que torna o livro verdadeiramente extraordinário. Enquanto filme de aventuras autónomo, porém, é um sucesso assinalável.

No fim de contas, quem vir apenas o filme ficará a conhecer a história essencial de Edmond Dantés. Aquilo que perderá é grande parte da profundidade psicológica, política e moral que fez do romance de Dumas um dos clássicos mais influentes da história da literatura.

Por outro lado, se o filme inspirar nem que seja um pequeno número de espectadores a pegar no livro, talvez tenha prestado um serviço maior do que qualquer adaptação alguma vez poderia ambicionar. Afinal, depois de se ler O Conde de Monte Cristo, qualquer adaptação está inevitavelmente condenada a ser apenas uma versão abreviada.

THE ODYSSEY (2026)

 


Christopher Nolan é um daqueles realizadores que nos continua a lembrar que o génio e o "mas que merda é esta?" podem coexistir alegremente na mesma filmografia. Num dia oferece-nos The Prestige, um dos maiores truques de magia alguma vez levados ao grande ecrã. No dia seguinte lança algo como Interstellar, e de repente damos por nós a pensar se não precisamos de um doutoramento em física quântica só para perceber porque é que tanta gente insiste que aquilo é uma obra-prima. Felizmente, The Odyssey enquadra-se claramente na primeira categoria.

Em nome da mais pura sinceridade: nunca li o poema original de Homero, nem sou nenhum especialista em mitologia grega. Por isso, não vou fingir que consigo avaliar o quão fiel esta adaptação é ao material de origem. Vou avaliar o filme que Nolan fez.

Ao início, admito que fiquei um pouco à nora. A forma como Nolan decidiu dar início à estrutura narrativa pareceu-me algo desconcertante. Mas, assim que o meu cérebro finalmente entrou no ritmo da mecânica da sua narrativa, rendi-me por completo à grandiosidade épica de tudo aquilo.

Esta é, claro, a longa viagem de regresso a casa de Ulisses, mas o percurso é tão mental quanto geográfico. O arco da personagem é extraordinário: desenrola-se menos como uma simples viagem e mais como uma desesperada demanda psicológica por absolvição de todos os traumas e males que provocou. Cada episódio e cada encontro com monstros ao longo do caminho foi absolutamente fascinante. O filme tem três horas e, sinceramente, não olhei para o relógio uma única vez.

O elenco é fenomenal do princípio ao fim. Matt Damon carrega esta enorme epopeia com uma facilidade impressionante, conferindo a Ulisses tanto imponência como vulnerabilidade. Anne Hathaway rouba completamente as cenas sempre que aparece no ecrã — podem começar já a gravar o nome dela nos prémios. A maior surpresa para mim, no entanto, foi John Leguizamo. Independentemente do papel que interprete, haverá sempre uma parte do meu cérebro a gritar: "É o Luigi Mario!" Ainda assim, conseguiu conquistar-me por completo nesta interpretação.

A única escolha de elenco que nunca me convenceu totalmente foi Tom Holland. Talvez esteja a ser picuinhas. Ele entrega-se de corpo e alma ao papel e faz um excelente trabalho, mas tem um grande problema: é demasiado bonitinho. O seu ar de estrela de boys band e o seu aspecto impecável pareceram-me completamente deslocados neste mundo antigo, rude e implacável.

Visualmente, este filme é um triunfo absoluto e prova um ponto que defenderei aos sete ventos: é isto que acontece quando se constroem cenários reais, se fabricam navios de verdade, se filma em locais reais e se manda o CGI para o caralhinho mais velho (expressão técnica usada na minha terra)! Tudo transmite uma sensação de autenticidade palpável. Quase conseguimos sentir o sabor da água salgada. Podemos criticar Nolan à vontade. Podemos dizer que é só estilo e pouca substância. Mas ninguém pode negar que o homem está praticamente sozinho a tentar manter vivo o espírito da Hollywood Clássica. The Odyssey parece o sucessor espiritual moderno de Ben-Hur ou Cleopatra. Parece autêntico, sólido e pesado — um enorme suspiro de alívio quando comparado com os 90% de trampa artificial gerada em ecrãs verdes que Hollywood continua a despejar nos dias de hoje.

sábado, 18 de julho de 2026

MORTAL KOMBAT II (2026)


Mortal Kombat II
consegue, de alguma forma, dar a sensação de que dura três torneios em vez de um. Quase duas horas a despejar lore, regras, reinos, pessoas a morrer, a voltar à vida, meio mortas, meio zombies... a certa altura já só abanava a cabeça e fingia que estava a perceber a história.

O Johnny Cage e o Kano carregaram o filme às costas só com o carisma e a atitude. O resto do pessoal? Fatality.

Depois percebi que o filme original dos anos 90 provavelmente só me parecia a melhor coisa de sempre porque eu tinha 14 anos. Se o tivesse visto pela primeira vez já nos meus 40, provavelmente teria tido exatamente a mesma reação que tive com este. A nostalgia é um golpe final cruel.

Dito isto... quando começaram os créditos e arrancou o tema original de Mortal Kombat, transformei-me instantaneamente outra vez num adolescente completamente eufórico. Foi, basicamente, um orgasmo induzido pela nostalgia.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

EVIL DEAD TRILOGIA (2013 - 2026)

 


EVIL DEAD (2013)

Ainda me lembro da primeira vez que vi Evil Dead (2013). Foi num cinema em Paris e, logo nos primeiros minutos, percebi que este filme tinha uma coragem do caraças. Não era um remake tímido a tentar lucrar com a nostalgia — tinha tomates.

Em vez de tentar imitar o charme disparatado de Evil Dead 2, pegou numa história familiar e levou-a numa direção completamente diferente. A loucura slapstick desapareceu, dando lugar a um terror implacável, gore sem qualquer pudor e uma atitude que parecia dizer: «Até onde é que conseguimos levar isto?» A resposta: sim.

E levaram mesmo. Este filme não tem a mínima vergonha quando se trata de horror extremo. A infame cena em que a floresta… bem… abusa da protagonista? Lembro-me de estar sentado a pensar: «Espera… eles vão mesmo fazer isto?!» Fiquei de boca aberta. Foi chocante, desconfortável e impossível de esquecer.

Essa é, provavelmente, a melhor palavra para descrever toda a experiência: completamente tresloucada. Não no sentido de ser parva, mas porque os realizadores abraçaram a loucura a 100% e nunca recuaram. Cada morte brutal, cada litro de sangue, cada sequência arrepiante parece desafiar-nos a desviar o olhar.

Goste-se ou não, Evil Dead (2013) merece reconhecimento por se recusar a jogar pelo seguro. Não se limita a refazer um clássico — desfá-lo em pedaços, encharca-o em sangue e mostra-nos orgulhosamente o resultado com o maior e mais demoníaco sorriso imaginável.




EVIL DEAD RISE (2023)

Evil Dead Rise prova finalmente que os Deadites não precisam de uma cabana assustadora no meio da floresta para estragar o dia a alguém — ficam perfeitamente satisfeitos num prédio degradado. Claro que, por razões conhecidas apenas pelos realizadores, ainda arranjaram maneira de encaixar duas cenas (a abertura e o final) que pouco ou nada têm a ver com a história principal, só para poderem dizer: «Olhem! Ainda há uma cabana na floresta!»

O enredo é tão simples quanto qualquer filme de Evil Dead deve ser: alguém lê o Livro dos Mortos, os demónios são libertados, as pessoas ficam possuídas e pronto, ninguém se diverte. Honestamente, é tudo o que eu preciso. Bem… isso e tanques cheios de sangue. E quando digo sangue, falo de quantidades absurdas. A certa altura, deixamos de perguntar de onde vem tudo aquilo e limitamo-nos a admirar o compromisso.

Não tem propriamente o mesmo fator de choque do género «Não acredito que eles fizeram mesmo isto» que o filme de 2013, mas, assim que a mãe fica possuída, Alyssa Sutherland rouba completamente o protagonismo. A sua interpretação é perturbadora, completamente desequilibrada e estranhamente divertida — quase nos esquecemos de que está a tentar assassinar os próprios filhos.

O filme é muito bem realizado, os efeitos práticos são fantásticos e, embora o sangue digital por vezes exagere um pouco, nunca estraga a diversão. Evil Dead Rise não reinventa o género de terror, mas sabe exatamente o que é: uma gloriosa montanha-russa caótica, encharcada em sangue, muito mais interessada em entreter do que em fingir ser profunda. E, por vezes, é exatamente isso que um filme de Evil Dead deve ser.




EVIL DEAD BURN (2026)

Acho que já podemos dizer, sem grandes dúvidas, que esta nova trilogia ganhou oficialmente identidade própria. Deliberadamente, coloco os clássicos de Bruce Campbell e Sam Raimi numa categoria completamente à parte porque, sinceramente, parecem pertencer a um universo diferente em termos de tom.

Então, onde encaixa Evil Dead Burn? Para mim, fica em último lugar no ranking desta trilogia moderna — mas isso é muito mais um elogio do que uma crítica. A fasquia já estava altíssima. Se alguém me tivesse dito de antemão que o «pior» filme da trilogia ainda me deixaria mental e fisicamente exausto quando chegassem os créditos finais, teria assinado logo por baixo.

O filme oferece exatamente aquilo que espero de um Evil Dead: baldes de sangue, gore prático exagerado, brutalidade constante e demónios que claramente faltaram a todas as sessões de controlo da raiva. Dito isto, apesar de existirem vários Deadites memoráveis, não acho que nenhum consiga roubar as atenções da mesma forma que a mãe em Evil Dead Rise. Ela continua a ser o verdadeiro padrão de referência quando falamos de combustível para pesadelos nesta trilogia moderna.

Uma coisa que Burn faz melhor do que os seus antecessores é abraçar o humor. Não ao ponto de se transformar numa comédia, mas o suficiente para tornar toda a carnificina ainda mais divertida. Há uma personagem (a avó) que funciona praticamente como comic-relief, e fiquei surpreendido com a naturalidade com que se integra na história.

E aquele último ato… caos absoluto. Do bom. Quando apareceram os créditos finais, senti genuinamente que tinha sobrevivido a qualquer coisa, em vez de simplesmente assistir a um filme.

Visualmente, mantém a atmosfera suja e opressiva que tem definido esta nova fase de Evil Dead, com uma cinematografia elegante que nunca deixa que o caos se torne confuso. Cada sequência parece cuidadosamente construída para maximizar a tensão antes de libertar a mais completa insanidade. O elenco também se entrega de corpo e alma à loucura, exatamente como esta saga exige.

No geral, mesmo ocupando, para já, o terceiro lugar no meu ranking desta trilogia moderna, isso deve-se apenas ao facto de os outros dois filmes terem estabelecido um nível muito elevado. Ainda assim, este merece plenamente o seu lugar porque faz exatamente aquilo que um Evil Dead deve fazer: fazer-me rir, fazer-me estremecer, fazer-me questionar as escolhas de vida de toda a gente e deixar-me completamente esgotado quando tudo termina. Missão cumprida.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

THE TEXAS CHAINSAW MASSACRE (2003)


Sempre tive um fraquinho por este Massacre no Texas. No que toca a remakes, este é um daqueles casos em que posso dizer, sem qualquer problema, que se aguenta perfeitamente por si só, sem desrespeitar o filme original.

Antes de mais: a Jessica Biel é, provavelmente, a minha final girl favorita da história dos slashers. Sim, até mais do que a Jamie Lee Curtis ou a Neve Campbell. Aquelas calças de ganga absurdamente justas, o top que lhe deixa a barriga à mostra, e o facto de aquela pele brilhar apesar de andar a correr por terra, sangue e estradas poeirentas do Texas.. Se sobreviver ao Leatherface enquanto parece saída de um catálogo de moda não é talento, então não sei o que será.

Depois há o Xerife... é tão incrivelmente nojento, brutal e simplesmente repugnante que acaba por dar a volta completa e tornar-se estranhamente "adorável". Não no sentido de "convidava-o para jantar" mas enquanto ícone do terror é impossível não gostar de o ver em cena. O R. Lee Ermey rouba completamente todas as cenas como Xerife Hoyt. É barulhento, intimidante, completamente tresloucado e, de alguma forma, também tem um humor negro delicioso. Sempre que aparece, sabemos que tudo está prestes a ficar infinitamente pior para todos os envolvidos.

Uma das coisas de que mais gosto é o facto deste remake não tentar superar nem desrespeitar o original do Tobe Hooper. Na verdade, respeito mais o filme de 1974 do que propriamente gosto de o ver. É um daqueles filmes cuja importância para a história do terror é inegável, mesmo nunca tendo sido um dos meus favoritos. Ironicamente, diria até que este remake trata o material de origem com muito mais respeito do que aquelas sequelas iniciais algo bizarras alguma vez trataram.

Colocar novamente a história na década de 1970 também foi uma decisão inteligente. Sem telemóveis, desaparecem as inevitáveis discussões do género "Porque é que simplesmente não chamam a polícia?" de cinco em cinco minutos. As personagens estão verdadeiramente isoladas, o que torna tudo muito mais credível e mantém a tensão sempre em alta.

E depois há a apresentação visual. Daniel Pearl, que também foi o diretor de fotografia do filme original, regressou para desempenhar o mesmo papel, e isso nota-se. As cores poeirentas, o calor sufocante, os cenários imundos... tudo transmite uma sensação de suor, sujidade e desespero da melhor maneira possível. O realizador Marcus Nispel também merece elogios por ter criado uma versão suficientemente moderna para agradar aos milleneals, sem perder aquele lado cru, desconfortável e desagradável.

No geral, este é um dos poucos remakes de terror que defenderei sempre com gosto. Tem uma atmosfera fantástica, mortes brutais, vilões memoráveis e uma das minhas final girls favoritas de sempre. Além disso, qualquer filme que me faça torcer por alguém a correr desenfreadamente pelo interior rural do Texas com umas calças de ganga impossivelmente justas merece, no mínimo, um bocadinho mais de respeito.

sábado, 11 de julho de 2026

UNDERTONE (2025)

Só vi Undertone porque tinha umas horas para matar antes de um jogo do Mundial que começava de madrugada. De alguma forma, em vez de apenas passar o tempo, o filme roubou-me um pedaço da sanidade.

A parte mais estranha? Ainda não consigo decidir se gostei realmente dele.

É daqueles filmes que acabam, os créditos começam a passar e o teu cérebro recusa-se a seguir em frente. Aquilo aconteceu mesmo? Estava tudo a acontecer apenas na cabeça da protagonista? Ou será que o filme passou 90 minutos a manipular-me de forma brilhante? Continuo sem ter a certeza da resposta — e acredito que esse seja precisamente o objetivo.

Aquilo em que Undertone acerta em cheio é na atmosfera. Há uma sensação constante de que algo está terrivelmente errado, mesmo quando quase nada está a acontecer no ecrã. E isso acontece porque a verdadeira estrela aqui nem sequer é a câmara — é o som.

Não, a sério. Vejam o filme com auscultadores.

Bons auscultadores.

O áudio representa cerca de 90% daquilo que faz este filme resultar. Cada sussurro, cada rangido e cada silêncio são usados como armas. Os outros 10% vêm de tudo aquilo que o filme se recusa a mostrar, obrigando a imaginação a fazer o resto do trabalho. Afinal, o próprio cérebro é um departamento de efeitos especiais bastante eficaz.

Para uma produção que aparenta ter tido um orçamento modesto, revela uma confiança notável. Em vez de atirar sustos baratos ao público, aposta na tensão, na ambiguidade e na contenção. É uma aposta que não vai resultar para toda a gente, mas não posso deixar de a respeitar.

Então... gostei?

Perguntem-me amanhã. Ainda estou a processá-lo.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

FREAKIER FRIDAY (2025)


 

A crítica que ninguém pediu.

Antes de mais: será que precisávamos de uma sequela de Freaky Friday, mais de 20 anos depois??

Desta vez, Anna (Lindsay Lohan) é uma produtora musical e mãe solteira da adolescente Harper (Julia Butters). Ela está prestes a casar com Eric (Manny Jacinto), que tem uma filha, Lily (Sophia Hammons). No meio da confusão de conciliar duas famílias, o raio mágico volta literalmente a cair, através de uma cartomante numa despedida de solteira.

Mas a Disney, aparentemente com medo de ser demasiado simples (???), decidiu que dois corpos a trocar não eram suficientes. De repente, temos quatro pessoas a trocar de corpos: Tess acaba no corpo de Lily, Lily no corpo de Anna, Anna no corpo de Harper, e Harper no corpo de Tess. O objetivo? Voltar aos seus corpos antes do casamento de Anna.

E aqui reside o primeiro grande problema: a decisão de fazer a troca a quatro. Se no "original" de 2003, Freaky Friday, a dualidade mãe/filha já criava a dose perfeita de comédia e emoção, esta versão é uma confusão desnecessária. É preciso um diagrama para acompanhar quem está onde, e o resultado é um guião que se esforça demasiado para ser "mais doido" (freakier) e acaba por ser apenas confuso. Perde-se a simplicidade e o foco emocional que tornaram o primeiro filme tão cativante.

Depois, se estamos à procura de piadas novas e memoráveis que se juntem ao panteão da comédia familiar, podemos parar de procurar. O filme repete a fórmula — adolescente a tentar ser adulto, adulto a tentar ser adolescente — mas o novo material é lamentavelmente desprovido de gags realmente engraçados. A maioria das situações cómicas são previsíveis, assentes em anacronismos cansados sobre a Geração Z e a Geração X, que deixa o público mais a revirar os olhos do que a rir. É uma sequela de comédia que falha no quesito mais importante: não é muito engraçada.

Mas vamos ao elefante na sala: para os fãs de Mean Girls e Freaky Friday de 2003, há uma barreira psicológica: ver Lindsay Lohan a fazer de mãe estressada de uma adolescente, e pior, ver o seu eu adulto a ser interpretado por uma miúda da Geração Z.

É estranho. É como se a nossa memória coletiva da Anna Coleman, a rocker rebelde, estivesse a protestar. Não estávamos preparados para a Lindsay Lohan "mãe adulta responsável", e o filme não nos dá muito tempo para nos habituarmos à ideia antes de a atirar de volta para o caos da adolescência (no corpo de outra pessoa). A nostalgia é boa, mas o choque da passagem do tempo é real e, neste caso, um pouco melancólico.

Dito isto, há um raio de sol neste pântano de confusão nostálgica: Jamie Lee Curtis. Ela é, indiscutivelmente, o melhor do filme. O seu desempenho, seja a tentar ser uma pré-adolescente a fazer tiktoks ou uma rocker dos anos 2000, é uma masterclass de comédia física e de entrega total. Ela atira-se para o papel com uma alegria desenfreada, capturando a essência da adolescente no corpo de uma avó com uma energia que é simplesmente contagiante. É a sua performance que, ocasionalmente, salva o filme de cair no esquecimento total.

No final, Freakier Friday parece mais uma obrigação contratual para capitalizar a nostalgia do que uma história que precisava ser contada. É mais do mesmo, mas com menos coração e mais enredo desnecessariamente complicado.

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

HOUSE OF WAX (2005)


Debruço-me hoje sobre o remake de 2005 de House of Wax, do mestre do macabro original, Vincent Price. E que remake!

O realizador, Jaume Collet-Serra, soube pegar na premissa e dar-lhe um polimento (trocadilho intencional) de cortar a respiração. A história, para quem não se lembra, é simples e deliciosamente estúpida: um grupo de jovens giros — e sim, a câmara faz questão de os mostrar em todo o seu esplendor enquanto acampam e vão, um a um, sendo... digamos, redecorados — decide, por uma série de decisões questionáveis que só fazem sentido num slasher, ir parar a Ambrose, uma cidade fantasma que tem uma atração bizarra: um museu de cera. E temos aqui, como final girl, uma crush do início da minha idade adulta, uma Kim Bauer (só a conheço por este nome) que tem a infeliz tarefa de tentar sobreviver a uma família de gémeos psicopatas.

O que é inegável é que este filme é uma festa visual. O set design da cidade de Ambrose e da própria Casa de Cera é espetacular. A ideia de ter toda uma cidade, e não apenas o museu, feita de cera e a derreter é pura genialidade visual. Vemos casas inteiras que parecem ter vindo de um sonho febril, e o contraste entre a cera brilhante e os interiores putrefatos é de louvar.

E, claro, o terror adolescente exige que estes atores jeitosos (incluindo o Chad Michael Murray e o Jared Padalecki antes de ir caçar demónios) sejam perseguidos e chacinados. E aqui o filme não desilude, recorrendo a uns efeitos técnicos de grande nível para a época.

(SPOILER ALERT) O clímax na casa a derreter, onde os corpos wax-coated dos vilões se desintegram (ou ficam colados uns aos outros de forma grotesca), é um autêntico banquete de horror.

Sem esquecer a morte da coitada da Paris Hilton, que foi vendida como "See Paris Die" (Vejam a Paris Morrer). Pois bem, ela não só morre, como a sua cabeça é trespassada por um tubo. É uma morte gloriosa e catártica para a audiência teen da altura.

Agora, o ponto negativo, e sejamos honestos: o filme, com quase duas horas, é demasiado longo. Bastavam uns redondos 90 minutos para a coisa ser uma bomba. A primeira hora, antes da carnificina começar a sério, arrasta-se mais do que devia. Podiam ter acelerado o processo de transformar jovens em figuras de museu.

E onde é que este filme se encaixa na carreira do realizador, Jaume Collet-Serra? Bem, foi o seu filme de estreia! E que estreia.

Apesar de a crítica não ter sido entusiasta, House of Wax marcou o tom para o que viria a ser a sua marca: thrillers de ação e terror visualmente competentes, muitas vezes com um toque dark e uma boa dose de suspense. Seguiram-se êxitos de terror como “Orphan” (2009), e depois uma série de colaborações de ação de alto calibre com Liam Neeson (“Non-Stop”, “Run All Night”, “The Commuter”). Nos anos mais recentes, saltou para blockbusters como “Jungle Cruise” e “Black Adam”.

House of Wax é, portanto, a primeira e excêntrica peça de um realizador que se tornaria um especialista em entregar entretenimento tenso e bem realizado. É um filme de série B com ambições de série A, e merece ser recordado por isso!

sábado, 4 de outubro de 2025

HALLOWEEN 2 (2009) theatrical vs director’s cut



Rob Zombie e o seu Halloween 2! Se a versão de cinema era um soco no estômago, a Versão do Realizador é o soco, o pontapé e a sessão de terapia pós-traumática completa.

A versão que chegou aos cinemas, dizem as más-línguas (e os produtores, provavelmente), era a versão "leve", onde a nossa querida Laurie Strode (Scout Taylor-Compton) ainda parecia ter alguma hipótese de ser uma jovem normal. Ela está toda fodida, sim, mas a esperança, coitada, ainda respira. Isto foi uma manobra de estúdio porque, aparentemente, queriam uma Laurie menos "aborrecida" e mais "apetecível" para o público, como se a palavra-chave para um filme de terror não fosse "terror", mas sim "simpatia instantânea".

No entanto, o Rob Zombie não estava para brincadeiras. Ele olhou para os produtores com o seu cabelo todo rock&roll, apontou o “middle finger” e disse: "Não, meus amigos. A minha Laurie vai ser uma bagunça completa. E o Dr. Loomis vai ser um idiota capitalista ainda maior." E assim nasceu a Versão do Realizador, que é cerca de 14 minutos mais longa e infinitamente mais perturbadora.

Nesta versão, o Zombie, com a sua sensibilidade peculiar, deu a Laurie mais sessões de terapia onde ela é um poço de raiva e paranóia. Ele queria que percebêssemos, alto e bom som, que um trauma destes não se cura com pensamentos positivos e uma caneca de chá. O realizador fez esta escolha deliberada para mostrar a descida ao inferno psicológico de Laurie, refletindo a sua própria interpretação de que ela está, de alguma forma, ligada à fúria de Michael, uma espécie de destino trágico familiar. As cenas de alucinação são mais longas, mais grotescas e a relação dela com Annie é a epítome de uma amizade a colapsar sob o peso do PTSD.

O Dilema dos Finais: Morte ou Máscara?

No final, e apesar de toda a sujidade, raiva e desenvolvimento psicológico que a Versão do Realizador nos oferece – e que, sejamos honestos, a torna a experiência cinematográfica mais rica, corajosa e visceral (o que, para mim, a coloca em primeiro lugar) – chegamos à famigerada última cena.

Na Versão do Realizador, Laurie morre. Sim, ela é baleada pela polícia após ter esfaqueado o Michael. É um final definitivo, trágico e que o Zombie pretendia desde o início como o fecho absoluto para a sua história. Ela acaba num hospício, mas é uma visão, a sua mente a desligar-se, vendo a sua mãe fantasma. É poético, mas também... deprimente. É o Zombie a dizer: "Aqui não há sequelas, amigos. Só miséria."

A Versão de Cinema, contudo, faz a cambalhota. Laurie apunhala Michael e é levada para a ambulância, viva, terminando numa ala psiquiátrica onde tem uma alucinação de si própria a vestir a máscara de Michael. A eterna "porta aberta para a sequela" que os produtores tanto amam! É um final menos "arte", mas mais rock & roll do género slasher clássico: o mal é contagioso, a vítima torna-se no monstro.

E é aqui que me rendo à lógica comercial e à diversão do género: eu prefiro o final da versão de cinema. É mais chocante, mais icónico e tem aquele toque de mau gosto deliciosamente previsível que um bom slasher merece. A Laurie a vestir a máscara e a gritar é a cereja no topo do bolo da confusão, um gancho barato mas eficaz que, ironicamente, funciona melhor para fechar a narrativa de um slasher do que a morte poética de Zombie.

Portanto, tiro o meu chapéu à visão sombria e mais profunda da Versão do Realizador, que é a forma superior de ver o filme, exceto pelos últimos dois minutos.

quarta-feira, 17 de setembro de 2025

THE CONJURING: LAST RITES



Em Last Rites, Ed e Lorraine Warren (Vera Farmiga e Patrick Wilson) enfrentam o que se diz ser o caso mais perigoso de toda a saga: uma família chamada Smurl é atormentada por um espelho amaldiçoado, aparições, objetos possuídos, e mais umas cenas sobrenaturais. Paralelamente, vemos Judy Warren (a filha do casal) com o seu namorado Tony e umas coisitas que a atormenta.

O filme abre com um flashback dos anos 60, introduz uma tragédia pessoal dos Warren e tece estas duas linhas narrativas: a dos Smurl, atormentados pelo mal – e a dos Warren lidando com os fantasmas do passado e com Judy, que tenta conciliar os perigos sobrenaturais com os dramas de família. Só no último acto é que tudo converge — espelho, demónios, revelações, etc.

Vera Farmiga e Patrick Wilson continuam a ser os pontos fortes do filme. Eles ainda têm química, e acabam por nos fazer acreditar que há algo real em tudo isto, que estas pessoas veem coisas que nós nem imaginamos — e têm medo. Farmiga, em particular, dá tudo — aquela tensão entre o cansaço, a fé, a culpa, o dever — é material para que ela possa brilhar. Mia Tomlinson como Judy impressiona — leve, mas com camadas. Consegue ser vulnerável sem se tornar irrelevante. (E fui só a mim que ela se parece demasiado com uma jovem Zooey Deschanel?) O elenco dos Smurl, no entanto, sofre um pouco: como são menos desenvolvidos, parecem figuras sobre as quais nos perguntamos “mas por que é que me devia importar tanto?”. Falta o chamado "character development".

Um dos maiores problemas do filme é ele ser demasiado longo. Algumas cenas repetem beats narrativos. A introdução leva bastante tempo a estabelecer as duas histórias (Warrens + Smurls), e só mais para o meio-fim é que as coisas começam a convergir. Há momentos em que sentimos “já vimos isto antes”, ou “quando é que voltamos ao espelho amaldiçoado?”. O filme poderia ter sido mais condensado: cortar umas subtramas menores, diminuir prolongamentos de tensão que incham o ritmo mas não acrescentam sustos novos nem desenvolvimento de personagem.

Esta estrutura narrativa de “duas linhas” é algo arriscado: por um lado adiciona complexidade, profundidade, permite explorar diferentes ângulos; por outro, pode dispersar. Last Rites faz isto: temos os Smurl a lidar com o tormento, e temos os Warrena lidar com o passado, culpa, expectativas. O problema é que, até quase ao final, sentimos que as linhas correm muito separadas, e a interseção poderia ter sido mais suave. O coincidir no último acto é eficiente — há tensão, há confronto — mas custa chegar lá: o público tem de segurar o entusiasmo por muito tempo.

Jump-scares, still alive 

A boa notícia para mim, que gosto de uns bons jump-scares; eles continuam a existir e bem feitos. Alguns são previsíveis, outros funcionam muito bem. Também há momentos com boa atmosfera, uso de ambientes escuros, espelhos, reflexos distorcidos, câmaras que observam antes de mostrar, uso competente de som. Não vai reinventar o género do terror, mas dá conta do recado.

O facto deste filme ser "baseado numa história verídica" não sei se ajuda, muito por culpa da romantização do casal Warren. O filme continua a retratar Ed e Lorraine como um casal quase ideal — dedicado, corajoso, devoto, unido a enfrentar o mal, com muita fé, com pouco conflito pessoal que afete negativamente. Mas na vida real há críticas: o envolvimento deles em certas investigações é controverso; algumas das suas práticas, alegações de autoria, descrições de fenómenos, etc., foram questionadas. O filme, obviamente, escolhe suavizar ou ignorar essas partes mais sombrias/complicadas para manter a mitologia. O risco disto é que a “romantização” torne os Warren demasiado heróicos, unidimensionais ou ideais, o que enfraquece a tensão moral ou psicológica. Se tudo for fé, coragem e sacrifício, falta espaço para dúvida — e medo real.

Finalmente, se compararmos este filme com os anteriores (nomeadamente os dois primeiros) aqui filme tropeça um pouco: o primeiro Conjuring (2013) estabeleceu o standard alto: atmosfera tensa, medo antigo, sensação de “não saber o que vai acontecer” — tudo isso feito com a mestria do James Wan. O segundo supera mesmo o nível, com sequências assustadoras e expansão do mundo sobrenatural, mas sem perder o controlo do tom. este Last Rites não chega lá. Não há tanta originalidade no mal que assombra, nem nos saltos de medo — muitos são previsíveis, ou dependem demasiado de música alta, efeitos sonoros bruscos, câmaras tremidas.
Em termos de impacto e frescura, os filmes anteriores fazem mais com menos: menos explicações, mais ambiguidade. Last Rites tenta compensar com escala, com várias linhas narrativas, com mais acção — o que às vezes dilui o terror. 

No geral The Conjuring: Last Rites vale a pena se formos fãs da saga e quisermos fechar com Ed, Lorraine e Judy. Há bastante material emocional de despedida.