sábado, 15 de agosto de 2026

SPIDER-MAN (2002)


Tenho de admitir uma coisa que pode ser difícil de processar para algumas pessoas: rever o Spider-Man, de Sam Raimi, ajudou-me a sarar algumas feridas antigas.

Para que percebam, sempre fui firmemente Team DC. O Superman e o Batman são os meus super-heróis. Os meus heróis de infância. A certa altura, isto evoluiu naturalmente para um ódio completamente racional e perfeitamente saudável por tudo o que fosse Marvel. E Spider-Man foi um dos primeiros filmes a receber toda a força do meu cuidadosamente cultivado ódio à Marvel.

Olhando para trás, provavelmente estava a ser um pouco injusto e imaturo.

Vê-lo novamente hoje, com um pouco menos de espírito de fanboy e consideravelmente mais maturidade emocional — ou, pelo menos, com a ilusão de a ter — permite-me finalmente perceber porque é que tantas pessoas adoram este filme. Não, não é perfeito. Nem de perto. Mas há nele uma sinceridade maravilhosa que muitos dos filmes de super-heróis modernos parecem ter esquecido.

Para começar, Spider-Man assume orgulhosamente que é um filme baseado numa banda desenhada. Não passa duas horas e meia a tentar desesperadamente convencer-nos de que os super-heróis são, na realidade, pessoas extremamente sérias que, por acaso, usam capas. Raimi abraça as origens de banda desenhada, a realidade exagerada, as personagens coloridas e o melodrama, mantendo, ao mesmo tempo, o mundo suficientemente realista para nos importarmos com o que está a acontecer.

E esse equilíbrio funciona surpreendentemente bem.

Depois temos Willem Dafoe, que basicamente entra no filme, olha diretamente para a câmara com aqueles olhos magníficos e decide que a subtileza é coisa para atores menores. Norman Osborn está completamente descontrolado, e Dafoe rouba absolutamente todas as cenas em que aparece. De alguma forma, consegue tornar Norman assustador, ridículo, trágico e divertido, por vezes tudo nos mesmos cinco segundos.

O facto de James Franco e Dafoe parecerem genuinamente pai e filho também ajuda imenso. Há ali uma semelhança familiar convincente, o que torna a relação entre Harry e Norman muito mais credível. É um daqueles pequenos pormenores que talvez não se note conscientemente, mas que ajuda toda a coisa a funcionar.

Tobey Maguire é outra história. Certamente não parece um adolescente. Parece mais alguém que acabou de pagar a prestação da casa e está a tentar perceber se deixou o forno ligado. Mas Maguire tem algo importante: parece completamente deslocado. Peter Parker tem aquela expressão permanente de alguém que entrou acidentalmente na sala errada e é demasiado socialmente desajeitado para sair.

E, honestamente, funciona.

Há momentos em que o filme entra de cabeça no território da lamechice. Algumas cenas são tão sinceras que quase consigo ouvir um violino a aquecer algures fora de cena. Mas, curiosamente, agora acho essa sinceridade bastante encantadora. Raimi não tem vergonha do romantismo da história. Abraça-o.

O que me leva àquele beijo.

Durante anos, gozei com o beijo do Spider-Man pendurado de cabeça para baixo. Achava-o ridículo. Impraticável. Mas, ao vê-lo novamente, tenho de admitir a derrota.

É romântico para caraças.

Pronto. Disse-o.

O filme também tem alguns momentos de suspense genuinamente eficazes. A cena do jantar de Ação de Graças, por exemplo, constrói a tensão de forma magnífica. Norman a perceber gradualmente que Peter sabe mais do que deveria, Peter a sentir que alguma coisa está errada, Harry completamente alheio à bomba nuclear emocional que está sentada à mesa do jantar... é maravilhosamente desconfortável. Raimi sabe deixar uma cena respirar em vez de fazer imediatamente alguma coisa explodir.

E provavelmente foi uma das coisas que mais apreciei nesta revisão. Spider-Man leva realmente o seu tempo. Permite-nos conhecer Peter, Mary Jane, Harry e Norman antes de transformar toda a gente em super-heróis, vilões e vítimas. A história de origem parece uma verdadeira história, em vez daquele tutorial obrigatório que é preciso despachar no início.

Os efeitos visuais estão obviamente mais datados hoje, mas ainda existe uma fisicalidade nas cenas de ação que aprecio bastante. Parece um filme de uma época em que o cinema de super-heróis ainda estava a tentar perceber como andar antes de, eventualmente, aprender a produzir doze filmes por ano.

Por isso, depois de todos estes anos, sou oficialmente obrigado a rever a minha opinião.

Spider-Man não é perfeito. Pode ser lamechas, melodramático e, ocasionalmente, parece ter sido concebido por alguém que acabou de descobrir o CGI e imediatamente ficou perigosamente entusiasmado com ele.

Mas tem coração.

Compreende as suas personagens. Compreende o mundo das bandas desenhadas de onde veio. Sabe quando deve ser divertido, quando deve ser romântico e, surpreendentemente muitas vezes, quando deve ser genuinamente tenso.

Mais importante ainda, voltar a vê-lo fez-me perceber que talvez o meu eu mais jovem não fosse propriamente um crítico de cinema sério.

Era apenas um fanboy da DC com uma birra.

E, honestamente, acho que o Peter Parker finalmente me perdoou.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

LE FABULEUX DESTIN D'AMELIE POULAIN (2001)


Estou a rever O Fabuloso Destino de Amélie Poulain e, honestamente, estou naquele estado de suspensão em que já não sei se sou um “crítico de cinema” ou apenas alguém que precisa de um abraço e de uma oportunidade para partir o açúcar queimado de um crème brûlée.

É difícil falar deste filme de forma objetiva. Se me perguntarem se o argumento segue uma estrutura clássica de três atos ou se o ritmo é o ideal, provavelmente vou encolher os ombros. Mas se me perguntarem o que senti... ah, isso já é outra história. Passei aquelas duas horas numa montanha-russa emocional onde a felicidade, a melancolia e a nostalgia decidiram organizar uma festa dentro do meu coração.

Apaixonamo-nos por Amélie logo nos primeiros minutos. Ela tem aquela forma “estranha” de viver — observa o mundo através de um telescópio, enquanto tem medo de sair à rua. Parece flutuar numa espécie de infelicidade tranquila até que, entre cabinas fotográficas e álbuns de fotografias perdidos, encontra o seu grande propósito: tornar-se a fada-madrinha de Montmartre.

E que elenco de “pacientes” ela encontrou:

O Pai: com a sua obsessão pelo gnomo de jardim (que acaba por viajar pelo mundo).

Os colegas do Café des 2 Moulins: desde Georgette, a hipocondríaca, até Joseph, o profissional dos ciúmes que grava tudo o que a ex-namorada diz.

O “Homem de Vidro”: que pinta o mesmo quadro há décadas e nos faz questionar se nós também somos feitos de cristal.

A forma como ela manipula a vida destas pessoas — de maneira doce, mas ligeiramente maquiavélica — é magistral. Quem nunca sonhou vingar-se de um merceeiro mal-educado como o Sr. Collignon, trocando-lhe os chinelos de sítio ou mexendo no despertador?

Sejamos sinceros: a cidade de Paris de Jean-Pierre Jeunet é provavelmente a maior peça de “fake news” da história do cinema, e eu adoro-o por isso. Onde estão os milhões de turistas a atropelarem-se uns aos outros? Onde estão os tipos a vender porta-chaves da Torre Eiffel? Não existem. Até o sem-abrigo tem dignidade, recusando esmolas aos domingos porque “não trabalha aos fins de semana”.

É uma Montmartre filtrada por uma lente amarela e quente, onde tudo é limpo, bucólico e sonhador. É o tipo de mentira que aceitamos de bom grado, porque o mundo real já tem cinzento que chegue.

Não se pode falar de Amélie sem mencionar o acordeão de Yann Tiersen. A banda sonora é quase onírica. Se fechar os olhos agora, ainda consigo ouvir a valsa a rodopiar dentro da minha cabeça. É a música que transforma o simples ato de atirar pedras à água no Canal Saint-Martin num épico momento de introspeção existencial.

No fim, saio do filme a sentir-me um pouco como a Amélie: ligeiramente deslocado, mas com uma vontade repentina de tomar atenção às pequenas coisas. Talvez a beleza do cinema seja precisamente esta: não conseguirmos explicar por que razão um filme é bom, mas sabermos exatamente a forma como ele nos faz querer ser pessoas um bocadinho mais atentas ao mundo.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

OCEAN'S ELEVEN (2001)


Sejamos honestos: Ocean's Eleven (2001) é, sem a mais pequena sombra de dúvida, o filme mais cool alguma vez feito. Não tem apenas estilo — respira coolness em cada plano, em cada linha de diálogo e em cada fato feito à medida.

O Brad Pitt (Rusty) passa grande parte do filme a comer qualquer coisa com a maior das naturalidades, transformando o simples ato de petiscar na derradeira demonstração de carisma. O George Clooney (Danny) lança aquele seu olhar profundo e irresistivelmente elegante e, de repente, damos por nós a pensar que provavelmente também aceitaríamos assaltar o cofre de um casino se ele nos pedisse com jeitinho. A Julia Roberts... bem, é a Julia Roberts. Não há muito mais a dizer. Basta existir, sorrir, e a sala passa imediatamente a ser dela. E o Andy Garcia está sempre tão impecavelmente arranjado que quase nos esquecemos de que tem ar de ser o tipo de homem capaz de mandar eliminar alguém apenas com um olhar. A química entre todo o elenco não é apenas boa; devia ser considerada ilegal.

Aquilo de que mais gosto, no entanto, é do ritmo. A história avança com uma fluidez impressionante, sem nunca abrandar ou se perder em explicações desnecessárias. Na maioria dos filmes de assaltos, somos obrigados a esperar pelo grande golpe, mas aqui a preparação, o recrutamento da equipa e toda a logística quase absurda para montar o plano são tão divertidos quanto o próprio assalto.

Steven Soderbergh realiza tudo isto todo confiançudo. A banda sonora com influências jazz, a montagem eletrizante e os diálogos cheios de humor criam um filme incrivelmente elegante sem nunca cair na armadilha de se levar demasiado a sério. Nunca faz um esforço desesperado para parecer cool — e, ironicamente, é precisamente por isso que é tão cool.

É elegante, muito divertido, inteligente como poucos e simplesmente impossível de não adorar.

SUPERGIRL (2026)


Quando ouvi qual era realmente a premissa de Supergirl, pensei sinceramente: "É isto. É este o meu tipo de filme de super-heróis."

Gostei bastante do Superman do James Gunn e uma das estrelas desse filme foi o Krypto, o cão. Por isso, fazer com que a missão principal da "sequela" fosse "salvar o supercão envenenado indo à procura do antídoto" pareceu-me uma ideia perfeita. Nada de raios gigantes a atravessar o céu. Nada de catástrofes capazes de destruir o universo. Nada de partidas de xadrez multidimensional entre deuses cósmicos. Apenas... salvar o cão.

Sinceramente? Para mim, isso basta.

Cheguei a um ponto em que, muitas vezes, gosto mais dos filmes de super-heróis quando o que está em causa é algo mais simples. Salvar o mundo é muito bonito, mas depois do décimo quinto apocalipse em vinte anos, salvar um único bicho parece, de alguma forma, muito mais importante.

Infelizmente, Supergirl parece não confiar na sua própria premissa.

Em vez de se manter fiel a esta história deliciosamente simples, vai acumulando subtramas, mais planetas, mais CGI, mais personagens, mais coisas a voar através de portais coloridos... até que o filme começa a dar a sensação de que entrou, por engano, em três filmes de super-heróis diferentes ao mesmo tempo.

A ironia é que a sua maior qualidade estava ali desde o início. Uma aventura simples, perseguindo criminosos para salvar um cão. Porque é que isso não chegou?

A Milly Alcock é bastante cativante no papel de Supergirl e tem carisma de sobra, mas nem ela consegue suportar totalmente o peso de um argumento que está constantemente a distrair-se com as suas próprias ideias. Faz o melhor que pode, mas o carisma só consegue resolver até certo ponto.

Nem tudo são más notícias, no entanto. A banda sonora é absolutamente fantástica. Quase me fez esquecer que estava a ver uma missão de salvamento de um cão perdida no meio da burocracia do espaço profundo.

No fim de contas, Supergirl não é um mau filme — é apenas um filme frustrante. Tinha todos os ingredientes para ser uma aventura de ficção científica empolgante e cheia de coração, mas acabou por complicar demasiado aquilo que podia ter sido tão simples. É perfeitamente aceitável, mas, foda-se... podia ter sido muito melhor.

quinta-feira, 30 de julho de 2026

DRIVE (2011)


Drive
é normalmente o tipo de filme que me faz revirar os olhos. Sabem aqueles filmes super estilizados, em que toda a gente fica cinco minutos a olhar para o horizonte e metade dos diálogos é substituída por silêncios carregados de significado? Regra geral, isso é a receita perfeita para eu começar a ver quanto tempo ainda falta até aos créditos.

Mas, por alguma razão, Drive entrou-me no goto.

A história é, na verdade, bastante simples, mas transborda emoção. A personagem do Ryan Gosling — o The Driver (honestamente, nem me lembro se alguma vez dizem o nome dele) — tem uma postura quase robótica e distante que, à partida, não deveria resultar. No entanto, encaixa na perfeição na atmosfera do filme. À medida que vai "convivendo" com a vizinha e o filho dela, percebemos que existe um enorme coração escondido por detrás daquele olhar perdido no vazio. A relação entre eles tocou-me genuinamente, e não estava nada à espera disso num filme em que o protagonista passa cerca de 80% do tempo com cara de quem está quase a fazer cocó.

Depois há a violência. Quando acontece... bem, acontece mesmo. É gráfica, brutal e explícita. Ainda assim, nunca parece violência gratuita. Cada explosão de violência surge exatamente quando deve surgir, chocando-nos sem cair na tentação do gore pelo gore.

E falar de Drive sem mencionar a fotografia e a banda sonora devia ser ilegal. Complementam-se de forma tão perfeita que quase se tornam mais uma personagem do filme. As ruas iluminadas por néons, a fotografia onírica das cenas noturnas e aquelas faixas eletrónicas lindas carregadas de sintetizadores, que parecem ter escapado diretamente dos anos 80... tudo isto é puro conforto cinematográfico. O ambiente retro é mesmo irresistível.

É um daqueles raros filmes que prova que o estilo não tem de existir à custa da substância. Drive tem ambos e, de alguma forma, consegue transformar um homem calado a conduzir pelas ruas de Los Angeles numa das experiências emocionais mais envolventes que já tive dentro de um thriller criminal.

terça-feira, 28 de julho de 2026

THE MANDALORIAN AND GROGU (2026)


"The Mandalorian and Grogu" provavelmente não é um filme de que o universo Star Wars estivesse desesperadamente a precisar. A série já existia, era divertida, as pessoas gostavam dela e, sinceramente, ver Din Djarin a ficar silenciosamente a olhar para o horizonte durante 40 minutos de cada episódio funcionava na perfeição na Disney+. Mas, por outro lado… já viram a quantidade de brinquedos do Baby Yoda que existe? Claro que este filme ia acontecer. Algures numa sala de reuniões da Disney, é bem provável que um único peluche do Grogu pague a conta da eletricidade sozinho.

Ainda assim, o filme cumpre na perfeição aquilo a que se propõe: uma aventura espacial simples e direta protagonizada por duas personagens de quem o público gosta genuinamente. Nunca tenta convencer-nos de que é o auge filosófico da ficção científica moderna, e isso acaba por ser bastante refrescante. George Lucas sempre defendeu que Star Wars foi criado, acima de tudo, para crianças, e esse espírito sente-se aqui — da melhor forma possível. Há fantasia, criaturas disparatadas, batalhas com lasers, laços emocionais e o Grogu a fazer alguma parvoíce fofa de dez em dez minutos. Se procuram reflexões profundas sobre fascismo, vigilância e o colapso da democracia, Andor já trata disso (de forma excelente). Este filme quer apenas entreter-vos durante duas horas, e faz exatamente isso.

Ironicamente, os melhores momentos do filme não são as enormes cenas de ação — embora elas existam em abundância, com naves a explodir e disparos de blasters suficientes para levar uma fábrica intergaláctica de munições à falência. O verdadeiro coração emocional da história surge quando o Mandalorian fica inconsciente após uma batalha e o Grogu tem de cuidar dele durante vários dias. Ver este pequeno duende verde do caos a tentar sobreviver, proteger o Din e, pelo meio, roubar uns petiscos enquanto se comporta como uma criança pequena cheia de preocupações é estranhamente comovente. 

A banda sonora também merece um destaque especial. Em vez de simplesmente imitar o estilo orquestral clássico de John Williams, aposta numa atmosfera retro de ficção científica, com fortes influências dos sintetizadores dos anos 80. Por vezes, parece um western espacial realizado por alguém que tem todas as cassetes VHS de Blade Runner e O Bom, o Mau e o Vilão. E, sinceramente, essa combinação resulta na perfeição.

Porque é isso que este filme é, no fundo: um western passado no espaço. Um pistoleiro solitário a vaguear por mundos hostis com o seu companheiro de aventuras estupidamente querido. E eu não tenho problema nenhum com isso. Aliás, quem inventou o fenómeno "Baby Yoda" merece reformar-se numa lua privada algures, porque o Grogu continua a atingir níveis de fofura que deviam ser considerados uma arma. 

Não, "The Mandalorian and Grogu" não reinventa Star Wars. Nem precisa de o fazer. É divertido, encantador, visualmente empolgante, ocasionalmente emotivo e está perfeitamente consciente de que, por vezes, tudo o que as pessoas querem é um cowboy de armadura beskar a viajar pelo espaço com um pequeno filho verde que passa o tempo a cometer pequenos delitos.

segunda-feira, 27 de julho de 2026

DISCLOSURE DAY (2026)


Steven Spielberg já acumulou créditos suficientes para esta vida e para as próximas três. Quando és o homem que nos deu Tubarão, E.T. – O Extraterrestre, Parque Jurássico, Indiana Jones, Encontros Imediatos do Terceiro Grau, A Lista de Schindler, O Resgate do Soldado Ryan, Minority Report, Apanha-me Se Puderes, As Aventuras de Tintim, Munique, Lincoln e West Side Story, ganhas o direito de falhar o alvo de vez em quando. Felizmente, Disclosure Day não é um desses casos.

O maior problema de Disclosure Day nem sequer é o filme em si. É o marketing. Os trailers e a campanha promocional venderam ao público um tipo de filme, enquanto Spielberg entregou algo bastante diferente. Se entrares na sala de cinema à espera de uma invasão alienígena em grande escala, com naves gigantes a pairar sobre as cidades e a humanidade a lutar pela sobrevivência, é provável que saias desapontado. Mas, sinceramente, Spielberg já fez esse filme com A Guerra dos Mundos. Não estava interessado em repetir-se.

Em vez disso, oferece-nos um thriller político envolto num mistério de ficção científica. Os aliens estão lá, sem dúvida, mas não são os verdadeiros vilões. A verdadeira ameaça vem de nós. A humanidade encontra-se à beira de uma Terceira Guerra Mundial e o filme sugere repetidamente que o nosso maior inimigo sempre foi o medo, a ambição e a incapacidade de cooperar. É uma mensagem deprimente pela sua proximidade à realidade, e talvez seja precisamente por isso que tem mais impacto do que uma frota de OVNIs hostis.

As interpretações são excelentes em toda a linha. Emily Blunt é, mais uma vez, incrivelmente consistente. Nesta altura, estou convencido de que conseguiria interpretar de forma convincente uma comediante de stand-up, uma testemunha aterrorizada, uma agente secreta e a vizinha irritada de alguém, tudo na mesma cena. Aqui, transita com enorme naturalidade entre momentos de humor, medo, vulnerabilidade e tensão, suportando grande parte do peso emocional do filme.

Colin Firth foi a maior surpresa para mim. Estou tão habituado a vê-lo como o cavalheiro encantador que vê-lo a mover-se num território moralmente ambíguo foi quase desconcertante. À primeira vista parece ser o vilão, mas será mesmo? O filme nunca oferece uma resposta fácil. Aliás, uma das suas questões mais interessantes é precisamente se ele estará, afinal, a tentar proteger a humanidade em vez de a manipular.

Essa ambiguidade moral estende-se ao principal dilema ético do filme. Quem tem razão? Aqueles que acreditam que a verdade sobre a existência de vida extraterrestre deve ser partilhada com toda a gente, independentemente das consequências? Ou os que defendem que a humanidade ainda não está preparada para esse conhecimento e que revelá-lo poderá desestabilizar governos, religiões, economias e talvez até a própria civilização? Infelizmente, estas questões nunca são exploradas com a profundidade que mereciam. O mesmo acontece com a forma como o filme aborda a religião. A descoberta de vida extraterrestre inteligente abalaria certamente os alicerces de muitos sistemas de crenças, mas o argumento limita-se a aflorar essa ideia antes de seguir em frente.

Ainda assim, apesar de ter ficado com vontade de ver Spielberg aprofundar mais estes temas, nunca posso dizer que me aborreci. Nem por um segundo. O filme tem um sentido de ritmo notável. Cada revelação conduz naturalmente a uma nova pergunta, cada conversa tem peso, e quando Spielberg decide lembrar toda a gente de que ainda sabe filmar cenas de ação melhor do que muitos realizadores com metade da sua idade, entrega sequências verdadeiramente empolgantes.

A sequência do comboio, em particular, é extraordinária. É tensa, magistralmente coreografada e filmada com uma clareza que parece cada vez mais rara nos grandes blockbusters modernos. Sabemos sempre onde cada personagem está, o que está a acontecer e porque é que isso importa. Um nível de clareza surpreendentemente elevado para os dias de hoje.

No final, Disclosure Day não é o filme de invasão alienígena que muitos esperavam. É mais inteligente, mais contido e muito mais interessado no comportamento humano do que no espetáculo extraterrestre. Isso poderá frustrar alguns espectadores que foram levados a esperar uma coisa e receberam outra. Mas, avaliado pelos seus próprios méritos, continua a ser uma obra cinematográfica envolvente, inteligente e extremamente divertida.

E talvez esse seja o derradeiro truque de Spielberg. Mesmo quando não faz o filme que pensavas estar a comprar bilhete para ver, consegue sempre fazer um que vale a pena ver.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

THE COUNT OF MONTE-CRISTO (2002)

Não via O Conde de Monte Cristo (2002) há muitos anos, mas lembrava-me de ter gostado imenso do filme. Na altura, sabia muito pouco sobre o romance de Alexandre Dumas para além da sua premissa básica. Entretanto, porém, acabei finalmente por ler o livro — e não um livro qualquer. Na minha opinião, O Conde de Monte Cristo é a maior obra de ficção alguma vez escrita. A minha edição tem quase 900 páginas e, de alguma forma, sinto que cada uma delas se justifica plenamente.

Rever o filme de Kevin Reynolds depois de ler o romance acabou por ser uma experiência bastante peculiar.

Por um lado, seria completamente injusto esperar que um filme de Hollywood com apenas duas horas adaptasse fielmente um romance de uma dimensão e complexidade tão extraordinárias. A obra-prima de Dumas está repleta de intrigas elaboradas, conspirações políticas, reflexões filosóficas, inúmeras personagens memoráveis e subtramas suficientes para ocupar várias temporadas de uma série televisiva. Alguma coisa tinha inevitavelmente de ficar pelo caminho.

E fica.

O filme é, acima de tudo, uma produção de Hollywood — e digo-o sem qualquer intenção de elogio ou crítica; é apenas uma constatação. Simplifica a história, transformando-a num relato de vingança mais direto e extremamente divertido. A premissa permanece intacta: Edmond Dantès é injustamente preso, passa quase quinze anos encarcerado, consegue escapar, descobre um tesouro, reinventa-se como o Conde de Monte Cristo e parte em busca de vingança contra aqueles que destruíram a sua vida.


Continua a ser uma história fantástica. Aliás, sejamos justos: se Dumas tivesse escrito apenas isso, a maioria dos autores ficaria mais do que satisfeita em dar a carreira por concluída.

No entanto, as camadas mais profundas do romance são significativamente reduzidas. A conspiração que conduz Dantés à prisão é simplificada. Muitas das relações entre as personagens perdem a sua complexidade e algumas desaparecem por completo — como se os realizadores tivessem olhado para a lista de personagens e dito: «Nem pensar, não vamos explicar isto tudo.» A própria vingança torna-se muito mais direta e convencional. O abade Faria, uma das figuras mais fascinantes do romance, desempenha um papel mais reduzido e menos rico em nuances. Mais importante ainda, Edmond Dantés transforma-se num herói muito mais tradicional.

No romance, Dantés é uma personagem muito mais estranha e moralmente ambígua. Enquanto Conde, parece muitas vezes menos um homem do que um instrumento do destino, encarregado de cumprir um desígnio maior que nem ele próprio consegue controlar plenamente. A sua busca por vingança levanta questões morais difíceis, e o livro obriga constantemente o leitor a perguntar-se se justiça e vingança são realmente a mesma coisa. O filme, compreensivelmente, demonstra muito menos interesse por estas complicações filosóficas. Prefere duelos de espada, confrontos dramáticos e momentos de recompensa emocional — que, convenhamos, também são bastante satisfatórios.

Ver o filme depois de ler o livro é, por isso, um pouco como visitar uma magnífica maqueta de uma catedral que já tivemos oportunidade de explorar na realidade. A forma é imediatamente reconhecível, muitos dos elementos essenciais continuam presentes e o resultado continua a ser impressionante. Mas desapareceram alas inteiras, passagens escondidas e inúmeros detalhes de grande riqueza.

Ainda assim, gostei muito de o rever. O elenco é excelente, o ritmo raramente abranda e o filme consegue manter-se cativante do princípio ao fim. Enquanto adaptação do romance de Dumas, deixa de fora grande parte daquilo que torna o livro verdadeiramente extraordinário. Enquanto filme de aventuras autónomo, porém, é um sucesso assinalável.

No fim de contas, quem vir apenas o filme ficará a conhecer a história essencial de Edmond Dantés. Aquilo que perderá é grande parte da profundidade psicológica, política e moral que fez do romance de Dumas um dos clássicos mais influentes da história da literatura.

Por outro lado, se o filme inspirar nem que seja um pequeno número de espectadores a pegar no livro, talvez tenha prestado um serviço maior do que qualquer adaptação alguma vez poderia ambicionar. Afinal, depois de se ler O Conde de Monte Cristo, qualquer adaptação está inevitavelmente condenada a ser apenas uma versão abreviada.

THE ODYSSEY (2026)

 


Christopher Nolan é um daqueles realizadores que nos continua a lembrar que o génio e o "mas que merda é esta?" podem coexistir alegremente na mesma filmografia. Num dia oferece-nos The Prestige, um dos maiores truques de magia alguma vez levados ao grande ecrã. No dia seguinte lança algo como Interstellar, e de repente damos por nós a pensar se não precisamos de um doutoramento em física quântica só para perceber porque é que tanta gente insiste que aquilo é uma obra-prima. Felizmente, The Odyssey enquadra-se claramente na primeira categoria.

Em nome da mais pura sinceridade: nunca li o poema original de Homero, nem sou nenhum especialista em mitologia grega. Por isso, não vou fingir que consigo avaliar o quão fiel esta adaptação é ao material de origem. Vou avaliar o filme que Nolan fez.

Ao início, admito que fiquei um pouco à nora. A forma como Nolan decidiu dar início à estrutura narrativa pareceu-me algo desconcertante. Mas, assim que o meu cérebro finalmente entrou no ritmo da mecânica da sua narrativa, rendi-me por completo à grandiosidade épica de tudo aquilo.

Esta é, claro, a longa viagem de regresso a casa de Ulisses, mas o percurso é tão mental quanto geográfico. O arco da personagem é extraordinário: desenrola-se menos como uma simples viagem e mais como uma desesperada demanda psicológica por absolvição de todos os traumas e males que provocou. Cada episódio e cada encontro com monstros ao longo do caminho foi absolutamente fascinante. O filme tem três horas e, sinceramente, não olhei para o relógio uma única vez.

O elenco é fenomenal do princípio ao fim. Matt Damon carrega esta enorme epopeia com uma facilidade impressionante, conferindo a Ulisses tanto imponência como vulnerabilidade. Anne Hathaway rouba completamente as cenas sempre que aparece no ecrã — podem começar já a gravar o nome dela nos prémios. A maior surpresa para mim, no entanto, foi John Leguizamo. Independentemente do papel que interprete, haverá sempre uma parte do meu cérebro a gritar: "É o Luigi Mario!" Ainda assim, conseguiu conquistar-me por completo nesta interpretação.

A única escolha de elenco que nunca me convenceu totalmente foi Tom Holland. Talvez esteja a ser picuinhas. Ele entrega-se de corpo e alma ao papel e faz um excelente trabalho, mas tem um grande problema: é demasiado bonitinho. O seu ar de estrela de boys band e o seu aspecto impecável pareceram-me completamente deslocados neste mundo antigo, rude e implacável.

Visualmente, este filme é um triunfo absoluto e prova um ponto que defenderei aos sete ventos: é isto que acontece quando se constroem cenários reais, se fabricam navios de verdade, se filma em locais reais e se manda o CGI para o caralhinho mais velho (expressão técnica usada na minha terra)! Tudo transmite uma sensação de autenticidade palpável. Quase conseguimos sentir o sabor da água salgada. Podemos criticar Nolan à vontade. Podemos dizer que é só estilo e pouca substância. Mas ninguém pode negar que o homem está praticamente sozinho a tentar manter vivo o espírito da Hollywood Clássica. The Odyssey parece o sucessor espiritual moderno de Ben-Hur ou Cleopatra. Parece autêntico, sólido e pesado — um enorme suspiro de alívio quando comparado com os 90% de trampa artificial gerada em ecrãs verdes que Hollywood continua a despejar nos dias de hoje.

sábado, 18 de julho de 2026

MORTAL KOMBAT II (2026)


Mortal Kombat II
consegue, de alguma forma, dar a sensação de que dura três torneios em vez de um. Quase duas horas a despejar lore, regras, reinos, pessoas a morrer, a voltar à vida, meio mortas, meio zombies... a certa altura já só abanava a cabeça e fingia que estava a perceber a história.

O Johnny Cage e o Kano carregaram o filme às costas só com o carisma e a atitude. O resto do pessoal? Fatality.

Depois percebi que o filme original dos anos 90 provavelmente só me parecia a melhor coisa de sempre porque eu tinha 14 anos. Se o tivesse visto pela primeira vez já nos meus 40, provavelmente teria tido exatamente a mesma reação que tive com este. A nostalgia é um golpe final cruel.

Dito isto... quando começaram os créditos e arrancou o tema original de Mortal Kombat, transformei-me instantaneamente outra vez num adolescente completamente eufórico. Foi, basicamente, um orgasmo induzido pela nostalgia.