Só vi Undertone porque tinha umas horas para matar antes de um jogo do Mundial que começava de madrugada. De alguma forma, em vez de apenas passar o tempo, o filme roubou-me um pedaço da sanidade.
A parte mais estranha? Ainda não consigo decidir se gostei realmente dele.
É daqueles filmes que acabam, os créditos começam a passar e o teu cérebro recusa-se a seguir em frente. Aquilo aconteceu mesmo? Estava tudo a acontecer apenas na cabeça da protagonista? Ou será que o filme passou 90 minutos a manipular-me de forma brilhante? Continuo sem ter a certeza da resposta — e acredito que esse seja precisamente o objetivo.
Aquilo em que Undertone acerta em cheio é na atmosfera. Há uma sensação constante de que algo está terrivelmente errado, mesmo quando quase nada está a acontecer no ecrã. E isso acontece porque a verdadeira estrela aqui nem sequer é a câmara — é o som.
Não, a sério. Vejam o filme com auscultadores.
Bons auscultadores.
O áudio representa cerca de 90% daquilo que faz este filme resultar. Cada sussurro, cada rangido e cada silêncio são usados como armas. Os outros 10% vêm de tudo aquilo que o filme se recusa a mostrar, obrigando a imaginação a fazer o resto do trabalho. Afinal, o próprio cérebro é um departamento de efeitos especiais bastante eficaz.
Para uma produção que aparenta ter tido um orçamento modesto, revela uma confiança notável. Em vez de atirar sustos baratos ao público, aposta na tensão, na ambiguidade e na contenção. É uma aposta que não vai resultar para toda a gente, mas não posso deixar de a respeitar.
Então... gostei?
Perguntem-me amanhã. Ainda estou a processá-lo.

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