sexta-feira, 18 de outubro de 2024

HALLOWEEN (1978 - 1981)

HALLOWEEN (1978)
Halloween (1978) é, sem dúvida, o filme que solidificou John Carpenter como um mestre do horror e deu origem ao que hoje conhecemos como o "pai dos slashers" (sim, eu sei que antes há uma série deles). A simplicidade da história e da execução poderia ser uma receita para o desastre, mas o que temos aqui é uma aula de terror minimalista que ainda é capaz de assustar hoje em dia.

A famosa música de Halloween, composta pelo próprio Carpenter, foi criada por uma razão muito prática: orçamento. Orquestras são caras, mas sintetizadores são baratos. E com um orçamento tão apertado, Carpenter decidiu assumir o papel de compositor. E adivinhem? Funcionou de forma genial. Mas antes de o filme ter essa banda sonora icónica, os primeiros visionamentos foram feitos sem música. Parece que os produtores ficaram perplexos porque... bem, o filme não metia medo. Era apenas um homem estranho a espreitar por arbustos. A música de Carpenter transformou isso em pesadelos auditivos.

Agora, o filme em si é o chamado "slow burn". Uma introdução simples, com dois planos, que já nos coloca no mood perfeito para o que vem a seguir. O genérico, com a abóbora iluminada ao som daquelas notas angustiantes, prepara-nos psicologicamente. É uma espécie de "este filme vai mexer contigo, mas espera só um bocadinho". A primeira cena, passada em 1963, é feita em POV (acho que é esse o termo), num long-shot hipnótico que nos faz sentir como se estivéssemos a espiar alguém, até culminar num contra-plano que revela o assassino: uma criança! Michael Myers, em todo o seu esplendor infantil, acaba de matar a irmã mais velha. Não vemos facadas explícitas, algo que lembra Psycho, onde a violência está mais no que imaginamos do que no que realmente vemos. Agora, imaginem alguém a ver isto pela primeira vez. Uma criança com uma faca na mão, a encarnar o mal puro. É desconcertante.

Logo depois conhecemos o Dr. Loomis, interpretado por Donald Pleasence, que se refere ao Michael como "it" e não "him", o que só reforça a ideia de que Myers não é um ser humano. E aqui começa a lenda do Boogeyman. Michael escapa do hospital, e depois temos o clássico stalker mode ativado. Laurie Strode (Jamie Lee Curtis), a nossa heroína, fica marcada quando vai deixar uma chave na casa dos Myers. A partir desse momento, ela torna-se a obsessão de Michael. Não há explicação lógica para isso, mas quem precisa de lógica quando se está a lidar com o mal encarnado?

Michael começa a seguir a Laurie por todo o lado, mas sempre de forma... relaxada. Ele nunca corre. Porquê correr? Ele sabe que vai apanhar a vítima eventualmente. O lado mais bizarro de Myers é que ele é meio mirone e até provocador. Há toda uma sequência estranha com a Annie na lavandaria, onde a porta se fecha e ela fica presa. Não, não foi o Michael, mas de alguma forma já estamos a contar os segundos até ela ser apanhada. Spoiler: ela morre no carro, não antes de Myers matar o cão da família, porque, aparentemente, cães também não estão a salvo. E é interessante que a morte da Annie só acontece aos 54 minutos. Sim, o filme leva o seu tempo, mas quando a violência começa, não pára.

Outro detalhe saboroso para os fãs de cinema é a cena em que as crianças estão a ver The Thing (1951), o filme que Carpenter viria a refazer em 1982. Uma piscadela para o futuro, e talvez uma forma de dizer "ei, eu adoro sci-fi, mas por agora vamos focar-nos no terror".

Depois temos o pequeno Tommy. Um miúdo chato que está obcecado com a história do Boogeyman, mas, no final, até tinha razão. O Dr. Loomis, neste ponto, ainda está relativamente normal, parecendo um psiquiatra dedicado. Mas à medida que o filme avança, percebemos que ele começa a descer numa espiral de obsessão com Michael.

As mortes continuam, claro. O namorado da Lynda é espetado numa parede (literalmente) na cozinha, numa das cenas mais icónicas do filme, com Michael a tirar uns segundos para admirar a sua obra. E depois, vem a parte em que Myers decide ser um brincalhão, disfarçando-se com um lençol e os óculos do namorado morto para ir ter com Lynda. E, sim, são as únicas mamas (.)(.) que vemos no filme, caso estivessem a contar.

Finalmente, o tão esperado confronto entre Laurie e Michael acontece aos 77 minutos. Ela foge, desesperada, batendo à porta de um vizinho que, numa decisão "brilhante", decide ignorá-la completamente. Mas o mais perturbador é que Myers nunca corre, só caminha. Porque, lá no fundo sabemos que ele vai apanhar. É uma perseguição física  mas também psicológica.

O momento em que Laurie apunhala Michael pela primeira vez e ele se reanima é a verdadeira transição de Michael de "gajo doido" para o Boogeyman. Até então, ele era apenas um psicopata teimoso. Agora, é indestrutível, o puro mal. Mesmo depois de levar seis tiros do Dr. Loomis e cair de uma varanda, Michael desaparece, e o filme termina com vários planos da casa ao som da sua respiração e da música arrepiante de Carpenter. Não há final feliz aqui. Só resta a promessa de que o mal nunca morre.


HALLOWEEN 2 (1981)

O Halloween II de 1981 começa como se estivéssemos a retomar o final do primeiro filme, mas com uma reviravolta sonora inesperada: em vez da icónica trilha minimalista do John Carpenter, temos... "Mr. Sandman". Sim, essa música doce e sonhadora, que, a meu ver, combina com psicopatas em fuga da mesma forma que sapatos de palhaço combinam com casamentos. Mas adiante. Revemos as mesmas cenas do final de 1978, apenas com um pequeno reshoot do Michael Myers a levar uns tiros e a cair da varanda. Se viram o primeiro filme, já sabem que isto não é problema para ele – o homem levanta-se na primeira cena pós-créditos como se nada fosse, pronto para mais uma noite de carnificina.

Aliás, mal se passam 11 minutos e já temos a primeira morte, uma cena tão rápida que parece que Michael estava a fazer hora extra e precisava despachar-se. Laurie, depois do pesadelo de ser perseguida por um irmão psicopata (sim, já lá vamos), vai parar ao hospital local, onde é atendida por um médico claramente com mais álcool no sistema do que bom senso. E quem é que ainda está mais maluco dos cornos neste filme? O Dr. Loomis, claro! Se no primeiro já parecia estar à beira de um colapso nervoso, aqui está a dois passos de se tornar o próprio vilão. Aliás, num momento particularmente confuso, ele é indiretamente responsável pela morte de um inocente, o que me fez questionar se não devíamos considerar uma intervenção psiquiátrica para ele também.

Agora, falando em intervenção, quem é que pode acreditar num hospital praticamente deserto? Eu sei que é uma cidade pequena, mas um hospital vazio parece mais um cenário de um episódio de Twilight Zone do que um filme de terror. E claro, temos o clássico segurança barrigudo e bigode farto. O pobre homem mal tem tempo de se mostrar, e já está a levar uma martelada na cabeça aos 38 minutos. Cena rápida, sem pinga de sangue – quase uma desilusão.

E, claro, há sempre personagens desenhadas para apimentar as coisas. Uma enfermeira "badalhoca" com mamas (.)(.) proeminentes (porque, por algum motivo, este é um critério de seleção essencial no casting dos anos 80) partilha uma das cenas mais caricatas do filme: um jacuzzi. Sim, um jacuzzi no meio de um hospital. Quem sou eu para questionar a lógica de design hospitalar? Nessa mesma cena, o companheiro da enfermeira é previsivelmente estrangulado, mas o plano foca-se tanto nela que, por momentos, quase esquecemos que estamos a assistir a um assassinato. A cereja no topo do bolo é quando a própria enfermeira é morta, afogada e queimada no jacuzzi. Uma combinação criativa, na melhor morte do filme.

Entre as cenas surreais, há um momento na escola com o Loomis, onde encontramos a palavra "Samhain" pintada numa parede. Para quem está a tentar acompanhar a lógica, é neste ponto que descobrimos que Michael e Laurie são irmãos. Sim, irmãos. E se isto vos parece ridículo, então não estão sozinhos. Esta reviravolta cai no filme como um balde de água fria (ou quente, dependendo do jacuzzi).

Voltando ao hospital, o Dr. Mixter – aquele que parece só estar no filme para morrer – é eliminado fora do ecrã com uma seringa no olho. Outra enfermeira tem um fim igualmente trágico com uma seringa espetada na cabeça. Michael, claro, persegue Laurie ao estilo gato e rato, e há mais uma enfermeira que encontra o destino nas mãos do vilão, desta vez sendo levantada com um bisturi nas costas. Nada de novo aqui, apenas mortes eficazes e diretas.

Ao longo do filme, Michael parece estar mais lento, quase como se fosse uma versão robótica de si mesmo. Talvez seja o peso dos tiros que vai acumulando ao longo da noite. Ele atravessa uma porta de vidro como se fosse feita de papel, corta a garganta de um polícia após levar uns balázios, e continua impassível.

No final, sobra Loomis e Laurie. Ele ainda é esfaqueado por Michael, mas Laurie consegue disparar e acertar-lhe nos olhos, deixando-o desorientado e a sangrar. Aqui entra uma cena de pura tensão: Laurie e Loomis abrem umas botijas de gás e o Loomis, num ato de sacrifício, faz-se explodir junto com Michael. Claro que, como manda a tradição, Michael ainda dá uns passinhos antes de cair.

O filme termina, curiosamente, da mesma forma que começa: com "Mr. Sandman". Talvez seja uma piada cósmica sobre como todos acabam por voltar aos mesmos pesadelos.

Se o Loomis neste filme transformou-se num personagem de exposition ambulante (alguém tem de explicar quem é Michael e por que é que ele continua a matar), o realizador Rick Rosenthal tentou imitar o ritmo mais lento e psicológico do primeiro filme. Mas John Carpenter, que escreveu o guião, pressionou para um ritmo mais frenético, com mais gore e mais vítimas, por causa da concorrência com Friday the 13th. O problema? Enquanto o original de 1978 inspirou centenas de filmes de terror, esta sequela parece ter sido inspirada pelas suas próprias cópias. Em vez de manter a essência original, caiu na armadilha dos clichés do género.

terça-feira, 15 de outubro de 2024

NEW FIST OF FURY (1976)

"New Fist of Fury" (1976) é um filme de artes marciais realizado por Lo Wei e tem um Jackie Chan naquele que é talvez o seu primeiro papel enquanto protagonista. Lo Wei queria torná-lo como o sucessor de Bruce Lee. Aliás, o filme é uma espécie de sequela do clássico de Bruce Lee, "Fist of Fury" (1972), mas apresenta uma abordagem diferente em termos de estilo de acção e actuação.


O enredo passa-se durante a ocupação japonesa de Taiwan nos anos 1930. Depois da morte de Chen Zhen (personagem interpretado por Bruce Lee no filme original), a sua missão de defender o orgulho chinês e resistir à dominação japonesa é retomada.

Jackie Chan interpreta Ah Lung, um ladrãozeco que inicialmente está relutante em se envolver na luta contra os japoneses; nem quer aprender as artes marciais. O filme começa com um grupo de japoneses que tenta destruir uma escola de kung fu chinesa, algo que já acontecia no primeiro filme. A personagem de Lung acaba por se envolver na luta e é treinado pelos alunos restantes da escola. O arco do personagem de Jackie Chan é bastante marcado: começa como uma pessoa que se está a cagar para tudo, limitando-se a roubar e acaba como um mártir. Ao longo do filme, ele descobre sua força interior e a importância de lutar pela honra e pela justiça. Essa é uma narrativa comum nos filmes de artes marciais, onde o herói passa por uma jornada de autodescoberta.

Um dos temas centrais do filme é a continuação da luta de Chen Zhen, personagem de Bruce Lee, simbolizando a resistência chinesa ao imperialismo japonês. No entanto, "New Fist of Fury" tenta não apenas homenagear o filme original, mas também lançar Jackie Chan como o novo ídolo do cinema de artes marciais. No entanto, nota-se que existe um conflito de estilo. Jackie Chan era ainda muito jovem e inexperiente, sem o estilo próprio de comédia e acrobacias pelo qual nós conhecemos e adoramos. 

O filme reforça o tema do orgulho chinês e a luta contra a ocupação japonesa, um tópico comum nos filmes de kung fu da época. Essa narrativa de resistência é personificada pelo confronto entre as escolas de artes marciais chinesas e os invasores japoneses que tentam desmantelar a cultura e o espírito chinês.

Em última análise, este filme foi uma das tentativas de Lo Wei de transformar Jackie Chan no "novo Bruce Lee", mas essa abordagem não foi bem-sucedida. Jackie Chan tem um estilo de atuação diferente: ele é mais expressivo, carismático e naturalmente inclinado à comédia física. O papel de um herói sério e implacável não se adequava ao que ele faria mais tarde, onde combinaria acção com elementos de humor e acrobacias.

"New Fist of Fury" não foi um grande sucesso comercial ou crítico na época do seu lançamento, e a tentativa de tornar Jackie Chan como o novo Bruce Lee foi um erro. No entanto, o filme é interessante como um marco na evolução da carreira de Chan. 

Pouco tempo depois, ele liberta-se das pressões e expectativas com filmes como "Snake in the Eagle's Shadow" (1978) e "Drunken Master" (1978), onde desenvolveu seu próprio estilo, que junta acção, acrobacias e comédia, o que o levou ao sucesso global.


quinta-feira, 29 de agosto de 2024

ALIEN: ROMULUS (2024)


"Alien: Romulus" é um daqueles filmes que tem tudo para dar certo, mas acaba por tropeçar nos seus próprios clichés. Não que o filme seja mau – aliás, eu curti muito e mesmo de todo o fan-service. Há muitas piscadelas de olhos aos filmes anteriores da saga que farão os fãs mais antigos sorrirem com nostalgia. Aliás, é quase como se o realizador tivesse uma checklist: Facehugger? Confere. Alien na ventilação? Confere. Personagem aleatório que diz "get away from her..."? Confere. O Ian Holm, apesar de estar morto há 4 anos? Confere.

A banda-sonora, por outro lado, é quase um personagem à parte, e um daqueles que está desesperado por atenção. Em vez de ajudar a criar uma atmosfera claustrofóbica e de medo, ela às vezes parece ter saído de um concerto de heavy metal com uma queda para o drama exagerado. Em momentos cruciais, quando deveríamos estar a suster a respiração, o compositor parece achar que estamos a assistir a uma batalha épica de "Star Wars".

Mas nem tudo é mau! A atriz principal rouba as cenas com um desempenho que nos faz lembrar a velha e boa Ripley. Ela carrega o filme às costas e, sejamos honestos, quando um alien esfomeado está na sala, é bom ter uma heroína que saiba o que está a fazer. Isto tudo com a ajuda do ajudante/meio-irmão/andróide Andy.

Agora, o ato final... Ah, o ato final. Desde o momento em que uma mulher grávida é introduzida na história, adivinha-se que estamos a caminhar para um desfecho um pouco descabido. É como se o argumento dissesse: "Esperem aí, ainda não fomos longe o suficiente!". E quando chega o momento culminante, não podemos deixar de rir e revirar os olhos ao mesmo tempo. Era previsível, claro, mas mesmo assim, não deixa de ser uma decisão de guião muito arriscada. E eu sou daqueles que acha que em sequelas/remakes se deve arriscar. Mas caramba, aquele híbrido....

Em resumo, "Alien: Romulus" é uma mistura de nostalgia, comédia involuntária, e momentos genuinamente bons. 


quinta-feira, 15 de agosto de 2024

DEADPOOL & WOLVERINE (2024)

Deadpool 3, ou será antes um roast à Disney, Marvel e Sony?

"‘Deadpool & Wolverine" é basicamente o que acontece quando deixamos dois dos personagens mais carismáticos e sarcásticos do universo Marvel tomarem conta da história, e o resultado é gloriosamente caótico. A química entre Ryan Reynolds e Hugh Jackman está mais afiada que a mini-knife do Wade. Depois só a presença do cão (Dogpool) vale o preço do bilhete — uma verdadeira estrela, que rouba as cenas todas onde entra.

Mas mais a sério, Morena Baccarin aparece muito pouco. Nós precisamos de mais Vanessa na nossa vida! E, sim, já esperávamos as meta-referências à cultura pop, mas desta vez eles foram além do limite, onde até o Deadpool parecia questionar-se se não estavam a ir longe demais. Mas, no fim, é impossível não rir e divertir com tudo o que acontece no ecrã.. Afinal, quem é que precisa de subtileza quando se tem Deadpool, Wolveri8ne, e um cão no ecrã? 


segunda-feira, 29 de julho de 2024

THE THREE MUSKETEERS (1993)

"The Three Musketeers" de 1993 é como um vinho que mistura várias castas: algumas até combinam perfeitamente, mas outras deixam-nos a questionar a sanidade do enólogo. Com valores de produção que lembram um desfile de moda renascentista patrocinado pelo maior carnaval de Hollywood, o filme oferece-nos cenários exuberantes e figurinos de encher o olho. 

Os desempenhos dos atores são uma verdadeira salada mista. Charlie Sheen como Aramis parece estar sempre a um passo de convidar toda a gente para uma festa na mansão Playboy. Kiefer Sutherland, que faz de Athos, traz uma profundidade e intensidade digna de quem realmente está a questionar as suas escolhas de carreira a cada cena. Chris O'Donnell, o impetuoso d’Artagnan, é tão convincente quanto um escuteiro (ou escoteiro) no seu primeiro acampamento, ou seja, anda ali cheio de entusiasmo, mas um pouco perdido no meio da floresta.

Tim Curry rouba as cenas onde entra como o Cardeal Richelieu - até parece que tinha acabado de sair diretamente de um curso intensivo de vilão patrocinado pelo Disney Channel, entregando um desempenho que é deliciosamente exagerado. Oliver Platt como Porthos é o comic relief de serviço, e vê-se que está a curtir à brava o papel.

No geral, "The Three Musketeers" é uma viagem cheia de aventuras. É um daqueles filmes que, mesmo com suas falhas, acaba por ter um lugar especial na memória – nem que seja apenas para nos lembrar que o excesso, às vezes, pode ser incrivelmente divertido.


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Joao Bastos





segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

ANATOMIE D'UNE CHUTE (2023)

"Sometimes a couple is kind of a chaos and everybody is lost. Sometimes we fight together and sometimes we fight alone, and sometimes we fight against each other, that happens." 

Dizem que "Anatomia de uma Queda" é um filme de tribunal. E é... só que é muito mais que isso. Mulher acusada de matar o marido tem de se defender em tribunal, o que vai trazer à baila todos os problemas do casal: culpa, traições,  sexo ou falta dele, intimidade, etc.. Por isso, este filme é um retrato do casamento (ou de muitos casamentos que há por aí).

Depois é um óptimo exemplo de filme a ser estudado numa escola, seja sobre edição, realização ou representação.  E que actores foram buscar. A começar pela actriz principal, Sandra Huller. Chegamos ao fim do filme e ficamos sem perceber se ela é realmente culpada, independentemente do resultado do julgamento. E isso deve-se muito ao desempenho dela.  Mas o miúdo, que faz de filho, rouba as cenas onde entra. Com 11 anos tem este desempenho... não sei o que fará quando ti

ver mais experiência? 

Pequenas notas que me lembro do filme:
- terá algum significado a música do 50Cent?
- um olhar sobre o sistema judicial francês. Não sei quão aproximado da realidade será, mas a forma como todo o filme está filmado, não me admira que esteja muito próximo de como realmente funciona.
- o uso do Inglês e Francês é feito de forma tão natural e fluida.

Para concluir, tenho pouco mais a dizer a não ser : PARABÉNS 

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

DRACULA (1931)

Ora, ali no início do século XX foram criados os estúdios da Universal. Mas andavam meio perdidos por pequenas produções, quando o novo patrão pega num livro, que estava  a ser adaptado para o palco, e na transição para o cinema sonoro, produz Dracula. Numa adaptação muito livre do livro do Bram Stoker, Dracula foi um sucesso e graças ao filme surgiram mais e mais filmes dos "monstros clássicos" como os conhecemos hoje. 
Mas e o filme, será que se aguenta bem quase 100 anos depois? A resposta directa deste escriba é: não sei. Por um lado, é inegável a influência que o filme tem até aos dias de hoje. Por outro, muito friamente, não gosto assim tanto. 
Antes de mais, o filme toma liberdades que não sei se jogam a seu favor. A começar pela representação do próprio Dracula. Aqui é mais um aristocata, enquanto no livro ele se assemelha mais ao Nosteraru (o filme). Depois o desempenho do Bela Lugosi enquanto conde deixa-me com mixed-feelings. Aliás, quase todos os actores têm o mesmo problema: demasiado "teatral" (à falta de melhor palavra). Bem sei que muitos vinham do teatro (o próprio Lugosi fazia o papel na Broadway), mas em cinema, a mim não me entra. Todo o filme parece saído de um palco. 
Quero ainda referir a banda-sonora... ou falta dela. Tirando os créditos iniciais e uma cena passada num teatro, não existe nenhuma trilha. Quando ninguém fala, existe silêncio.  Por uma lado, isso pode dar um ambiente mais sinistro. Por outro, a ausência de qualquer som pode deixar um espectador mais "perdido".

O melhor do filme: sem sombras de dúvida o Renfield. Que papelão do actor. 
Pode ser o maior clássico de filmes de vampiros, mas para mim é mais objecto de estudo por toda a influência que tem. 

domingo, 18 de fevereiro de 2024

ANACONDA (1997)

Há uma certa saudade dos anos 90, quando os grandes estúdios apostavam em bicharada para filmes. Seja com cobras, aranhas, crocodilos, dragões de Komodo, e mais uns quantos, isso era sinal de terror divertido. Hoje, tirando uma ou outra excepção, eztes filmes saem directamente da casa da Asylum, SyFy, ou outros estúdios independentes que fazem os filmes por 30 dólares.  E estes são sempre ou maus ou péssimos.  Mas no final do século passado havia aposta forte nisto. Um desses casos foi este Anaconda, que se centra no ataque duma anaconda de proporções gigantescas. Vamos buscar um casting forte. É certo que os nomes ainda não eram o que são hoje, mas ainda assim havia qualidade.  
Revejo este filme em 2024 e não sei porque gosto do filme.  Talvez o factor "nostalgia" seja uma das principais razões, até porque, se olhar objectivamente, o filme é fraquito... mas há ali qualquer coisa que nos cativa. Deve ser o CGI manhoso que nos faz rir... 
O outro factor passa por Jennifer Lopez. Acho que nunca a vi tão sexy como neste filme. E Jon Voight como vilão é divertido como o caraças.  Depois há ainda LL Cool J, antes de ir à caça de tubarões no Deep Blue Sea e o Owen Wilson antes de visitar casas assombradas no The Haunting. 
É fraquito mas diverte e isso basta para uma mente simples como a minha.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

THE BRIDE OF FRANKENSTEIN (1935)

Dizem por aí que este "Bride" é superior ao original "Frankenstein". Permitam-me discordar. Isto não quer dizer que seja mau. É excelente na mesma, e objectivamente talvez seja melhor. Mas há um par de coisas que não apreciei assim tanto, que me levam a preferir o antecessor.  
A começar pelo tom, por vezes desequilibrado. Confesso que o humor, nomeadamente, na personagem da governanta é algo exagerado. É quase pateta nalguns momentos. Não joga com o tom trágico do resto do filme.
Depois as experiências do novo personagem, o Dr. Pretorius. Ora, este criou vida em miniaturas, o que para mim vai para o campo da ficção-científica. O Frankenstein criou vida de forma mais "realista", credível no universo que nos é apresentado. As miniaturas de gente já foge disso. Aliás, o próprio Frankenstein caracteriza de "black maguc". Em última instância, parece mais uma desculpa para mostrar bons efeitos especiais.

Bem, tudo o resto roça a perfeição neste filme. O que já era bom no original,  aqui ainda melhorou. Nota-se que há mais orçamento. Os decors, a fotografia,  a música... tudo perfeito.

Quero só realçar umas coisinhas:
- O prólogo inicial coloca a própria Mary Shelley, o marido Percy e o terceiro membro deste ménage a trois, Lord Byron, a discutir como uma mulher tão bonita como a autora é vaoaz dos pensamentos mais macabros. Resultou como introdução e revisão dos acontecimentos do filme passado.

- Boris Karloff eleva a sua prestação como o Monstro, que na essência só quer companhia, e onde tenta aprender a diferença entre "good" e "bad".

- Toda a sequência com o cego eremita. Lindo. E a cena onde o velho agradece a Deus por ouvir as suas preces ao dar-lhe companhia, o que resultou no Monstro largar uma lágrima. Uma delícia. 

- Depois o culminar de tudo na aparição da Noiva. Apesar de dar título ao filme, esta só aparece nos últimos 4/5 minutos. O suficiente para entrar na história. Quase 90 anos depois, é uma personagem tão icónica que, mesmo nunca tendo aparecido em mais nenhum filme, aqueles 4 minutos bastaram para ser referência. 

Em jeito de conclusão,  parece-me um filme feminista, mesmo quando ainda nem se sonhava com esse conceito.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

FRANKENSTEIN (1931)

O universo dos monstros da Universal sempre me fascinou. Os meus preferidos são os menos icónicos: o Monstro da Lagoa Negra e o Homem Invisível. Frankenstein sempre foi posto de parte. Não lhe achava grande piada, mas o meu gosto por ele foi crescendo. E o que é certo é que cada vez que revejo o filme original, gosto mais dele. Vou sempre descobrindo detalhes, tomando atenção a coisas que antes não tomava. Depois de ter sido obrigado a ler o livro na faculdade, pois fazia parte do currículo de Literatura Inglesa, ainda gostei menos nessa altura. Deu dores de cabeça. Se fosse hoje, tirava 20 nessa disciplina.  
Sobre o filme, bem.. é um clássico do caraças. Pode não meter medo aos olhos de hoje, mas na época deve ter feito tremer as perninhas de meninas indefesas. 
O que eu vi hoje, ao rever Frankenstein, é que é um filme bonito. Que fotografia, que jogos de sombra... James Whale, o realizador,  a ir buscar a inspiração toda ao Expressionismo Alemão. Vejo ali muito do Caligari. 
Depois temos um elenco impecável com Colin Clive a fazer um Henry (??? E porque não adoptar o nome do livro, Victor?) tremendo sempre na fina linha de "cientista louco" e uma pessoa normal. 
E falar de Frankenstein e não referir Boris Karloff é no mínimo injusto. Que desempenho num papel que poderia cair numa caricatura. Karloff transmite uma inocência num personagem que facilmente poderia cair para o lado "monstrengo" da coisa.
Ficou na história e merece lá ficar por tudo o que representa.